segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Esta mudança de objectos permitiu que a nova História fosse melhor aceite pelo público. Mas esta aceitação terá que ver, possivelmente, também com o papel desempenhado pelos "mass-media", que, segundo Michel De Certeau, "ocupam hoje em dia, em grande parte, o lugar que a História tinha no séc. XIX."(18) Certamente que os jornais e os audio-visuais divulgaram de uma forma didáctica, e ao mesmo tempo divertindo, esta nova História. Talvez aí resida o seu sucesso, que, não só no seu adoptar de temas parcelares, ou novos objectos, os próprios historiadores quase que substituem "os romancistas como testemunhas do real." (19) A televisão contribui para a actualidade histórica com as suas reportagens que dão imediatamente a imagem dos acontecimentos "em países longínquos, como se a distância do tempo fosse substituída pela do espaço."
Porém, apesar de todas estas alterações e inovações no campo das novas técnicas visuais e informáticas, a História nova é, segundo J. L. Goff, fundamentalmente científica e mesmo universitária,"(20) apesar de não ser, segundo parece, esta a mais divulgada, mas sim aquela que é preparada pelos "especialistas" (não científicos) da televisão e das revistas ditas históricas, mas que permitem, segundo Emmanuel Le Roy Ladurire, aos historiadores científicos "penetrar nesse imenso mercado mesmo modestamente." (21)
Todo o processo evolutivo mundial leva a repensar a História hoje, e tudo parece ser posto em questão. Sucedem-se os debates, e os critérios quanto à sua especificidade são postos em questão. Os próprios historiadores se interrogam e se questionam conscientemente àcerca da possibilidade de a História ser possível como uma "ciência pura." (22) E porquê? Porque talvez esta só fosse possível numa perspectiva sincrónica da História. E então tornamos a verificar o gosto pela análise do acontecimento, em que se dê uma tomada de posição por parte do historiador. mas será isto possível? Penso que não, porque os documentos que traduzem os acontecimentos, sabem-no os novos historiadores, "são produto duma certa orientação da História,"(23) ao qual deve ser feita a crítica.
Talvez o progresso, que trouxe a informatização, as guerras químicas e biológicas, uma tecnologia que ameaça a destruição do próprio homem, o faça repensar-se e pôr em dúvida esse próprio progresso. E então interroga-se, através da História: "Quem somos, donde vimos, para onde vamos?" (24)
A próxima batalha a vencer pelos historiadores é, por isso, dominar "uma História do presente," (25) para corresponder a essa necessidade premente de identificação. Mas como vencer esse desafio da modernidade, se ao historiador se deparam dificuldades inúmeras? E aqui cito, como exemplo, o acesso aos arquivos de Salazar, que ainda não estão à disposição dos historiadores, para os consultarem. Tal como estes arquivos não são acessíveis e estão condicionados por um período de um quarto de século para se poder pesquisá-los, muitos outros exemplos, possivelmente, poderiam ser citados. Por outro lado, a enormidade de documentos produzidos pelos media também coloca questões de análise e de abordagem ao historiador, que se depara, nesse campo, com outros especialistas, "politicólogos, jornalistas, sociólogos" mais vocacionados para uma história do momento.
São imensas as dificuldades e os desafios que se colocam à Hstória nova, "reencontrar o real", já não sob a forma de narrativa, de anais, de crónicas, mas tendo "ideias sobre o presente" e pô-las em prática, pois este êxito da História nova parece assentar precisamente "da abstracção do modelo" na pluralidade, na diversidade do real.
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Notas:
(18) - Le Goff, J. e outros, «A Nova História», ed.70, Apr. pp.12.
(19) - Idem, cit. Paul Veyne, pp.16.
(20) - Idem, Le Goff,J., pp.18.
(21) - Idem, cit. Le Roy Ladurie, E., pp.19.
(22) - Idem, pp. 33.
(23) - Idem, cit. Le Goff, J., pp.34.
(24) - Idem, pp.26.
(25) - Idem, pp.25.

domingo, 8 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Se na história do passado havia documentos que permitiam uma relação causa-efeito, nesta História do presente apresentam-se imensas dificuldades a superar. Uma, que considero das maiores, é precisamente a da interdisciplinaridade, necessária para se compreender a totalidade social. É difícil. Porquê? Porque penso que os saberes vivem muito como "ilhas", separados dessa totalidade que o historiador novo pretende obter. Para estudar o "homem total", a História deixará de ser um trabalho isolado de arquivo e biblioteca, de documentos escritos quase unicamente (como o fora para os positivistas), para passar a ser uma "construção" de equipa, em que vários especialistas compartilham o seu saber e trabalham para um mesmo fim. Para Lucien Febvre existe apenas História na sua unidade. Esta unidade é trabalhada entre os anos 20 e 40 em França. Marc Bloch e Lucian Febvre são os protagonistas. Creio que é importante referir o trabalho que Lucien Febvre fez sobre Lutero em 1929, e sobre Rabelais em 1942. Neste último trabalho falará sobre a "utensilagem mental", que definia como o estado da língua no seu léxico e na sua sintaxe. Quais os utensílios e linguagem científica disponíveis? Quais os sistemas de persepções que comandam as estruturas da afectividade? Afinal, o cruzamento dos vários suportes linguísticos conceptuais e afectivos não implicariam nas maneiras de pensar e de sentir dirigidas?
Panofsky virá mais tarde falar sobre o conceito de "hábitos mentais", que tinham que ver com o inconsciente colectivo, princípios interiorizados que davam unidade à maneira de pensar de uma época. Este conceito estava ligado à psicanálise. O de Lucien Febvre estudava o aspecto linguístico mental. Creio que este aspecto é de primordial importância para o avanço da escola dos Annales em direcção à História nova. Robert Mandrou, um dos historiadores dos anos 60, publicou uma importante obra, em que põe em prática este conceito de "utensilagem mental",(14)que iria tornar-se, então, património dos historiadores. Deu importância às categorias psicológicas, tentando reconstituir os sentimentos e as sensibilidades inerentes aos homens da época moderna. O homem, quer do ponto de vista físico, ou psicológico, muda continuamente consoante o tempo e o espaço. Cada geração tem as suas características próprias.
Eis a dificuldade em fazer História: reconstruir o pensar e o sentir de uma época. A alimentação, ou a subalimentação, que vai originar diferenças na pirâmide de idades, a sexualidade, as espectativas de vida, o vestuário, a habitação, a saúde, a doença, a medicina existente, a educação e ensino disponíveis; tudo o que se conjuga para considerar o homem como um todo, e mesmo distinguindo o homem físico do psíquico (em que se estudam as sensações, sentidos, emoções, paixões), Robert Mandrou utilizou técnicas que se aplicam a outros períodos.
Isto é um breve resumo daquilo que eu considero terem sido as "sementes" lançadas por Lucien Febvre e a escola dos Annales para uma História nova. Ainda nesta linha de pensamento histórico estão os Padrões de Cultura, de Margaret Mead e Ruth Benedict (antropólogas americanas), que são coincidentes com os de utensilagem mental, apesar de este conceito se ter revelado muito mais completo para um estudo da história das mentalidades. Se pensarmos que também no princípio do séc. XX se verificava uma crise da História, se aliarmos este aspecto ao desenrolar dos acontecimentos que deram origem à primeira guerra mundial, melhor comprenderemos a importância de Marx e Engels, e de Freud, quando diziam que "o facto" nada vale fora do contexto. Dá-se como que uma descida do homem do seu pedestal, o humanismo era posto em causa, e o estruturalismo iniciava uma nova História, que já não detém o exclusivo do conhecimento humano, após emergirem outras ciências sociais e humanas.
Mas eis que, com o eclodir da guerra e o seu fim, se dá uma reformulação da ciência histórica. É ao analisarmos todas estas variâncias que maior valor podemos dar à "Escola dos Annales", verdadeiro berço da História nova, que irá responder às exigências de um novo saber, visto que a própria guerra e os seus resultados mostravam a incapacidade da História tradicional explicar semelhante conflito. Dá-se um alargamento do campo do documento, há necessidade de uma História imediata. Estudam-se as conjunturas, suas modificações, ciclos e abalos. Surgem as teorias de longa duração. A História é, agora, oscilatória e diacrónica. Os movimentos seculares(Trend), os ciclos de Kondratieff (50 anos) e os ciclos de Juglar (6 a 10 anos) entram na linguagem científica, analítica e crítica dos historiadores, agora, já não só no plano estritamente económico, mas para uma relação estrutural ampla e capaz de dar resposta à reformulação da totalidade do homem de cada época, inserido numa realidade económica e geográfica de uma sociedade com um sistema e um regime.
Em 1946 surge a Revista dos Annales com um novo título: Anais, Economias, Sociedades e Civilização; Fernand Braudel irá ser o principal mentor. A esse respeito diz Luís Barreto: "A revolução metodológica braudeliana representa a morte, enquanto investigação do tempo unidimensional, (...) porque a demonstração de que a diferença repousa na identidade, a descontinuidade implica a continuidade, a mudança atravessa e é atravessada pela permanência/herança. A consciência da pluralidade dos tempos do tempo é manifesta da História como complexidade." (15) Eis que irão surgir as bases de uma História nova efectiva, com toda a pujança, na sua aceitabilidade de constante diálogo com as outras ciências, numa dialéctica permanente com o tempo curto, médio ou longo, as permanências e mudanças.
A palavra "conhecimento" é muito importante para a História nova porque, no seu método de trabalho, o historiador aplica a heurística, a crítica histórica e a síntese para compreender os documentos e analisar causas e efeitos para melhor traduzir a ideia que comportam, apesar do historiador aceitar que o conhecimento do homem é sempre relativo. E aí talvez esteja a grandeza da História nova, porque, ao aceitar este facto, o historiador é, efectivamente, sempre um homem em busca, em análise, em pesquisa. Prova disso encontro-a no artigo de Francisco Belard, que escre a propósito dos Annales como escola, revista, arquivo...: "Sem repudiar nada do passado da revista, a direcção (...) Braudel é um período de longa transição, abrindo as vias do que se chamará a 'nouvelle Histoire', com a crise do sonho de uma 'História total', a fragmentação dos discursos, a busca obsessiva de temas e problemas, o apogeu da 'História das mentalidades', o declínio dos modelos estruturais e do primado do 'económico-social'."
"Surgem disciplinas de que o público nunca ouvira falar: História da morte, História do clima, História do medo ou das paixões. Dentro e fora dessa placa giratória que são os Annales, os novos historiadores ensaiam várias reabilitações: do acontecimento singular, da História política, do conceptual, do contemporâneo...Aparentemente, após assentar fundações no terreno económico-social, a História voltou a tomar banho no rio de outrora - mas as águas mudaram, bem como os métodos e o ponto de vista." (16). "Da História dos grandes homens e das grandes sínteses passou-se à História dos povos e das mentalidades, não só no plano contemporâneo como também da História antiga." (17)
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Notas:
(14) - Mandrou, Robert, «Introduction à la France Moderne», in notas das aulas de Cultura Portuguesa I, 6/7/89.
(15)- In Jornal Expresso de 7/12/85, pp.46-R.; in JL, pp. 10, de 25 a 31/12/84.
(16) - Idem pp.46-R.
(17) - Le Goff, J., e outros, «A Nova História», ed. 70, Apresentação, pág.,9.

sábado, 7 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Deixaria de haver o capital, ou mais valia, na posse dos burgueses capitalistas e o proletariado seria extinto. Uma 'tese' (baseada na dialéctica de Hegel), que seriam os factores de produção, a terra, a oficina, o comércio, etc.; a 'antítese', que seriam as relações de produção, a mão de obra, os assalariados e os seus conflitos laborais que, entrando em confronto, levariam à 'síntese': revoluções que alterariam completamente as estruturas. Esta visão global da História, incluindo o factor económico como determinante nas sociedades dos homens, terá um papel inovador, indo contribuir para o aparecimento da História nova, pelo papel de destaque que Marx e Engels dão ao homem na sua totalidade. À procura das transformações do homem, através da filosofia, Engels propunha:(...) "as causas finais de todas as transformações sociais e revoluções políticas, devem procurar-se, não no cérebro humano, não nos critérios humanos àcerca da verdade eterna e da justiça, mas nas transformações quanto aos modos de produção e de troca. Devem procurar-se, não na filosofia, mas na economia de cada período determinado." (12)
A noção de conjuntura e de estrutura estava proposta, a teoria materialista de História transformava Marx e Engels nos principais percursores da História Nova.
Eis-me chegada desta 'viagem' no tempo, a um tempo em que irá surgir a "morte, enquanto investigação, do tempo unidimensional." Repouso, enfim. Pouso a minha máquina do tempo em que me foi possível retornar à antiga Grécia e conhecer os primeiros mestres historiógrafos, deixo de lado talvez o quinhão de poesia, e torno, então, aos verdadeiros percursores desta História nova, porque não quero penetrar nestes magníficos tempos historiográficos sem recordar mais uma vez aqueles que foram tornando possível o estádio actual. As concepções da História do séc. XX resultam de um longo processo de tranformação operado a partir do Renascimento; porém, a base deste movimento cultural assenta na antiguidade clássica. Eis porque fui tão longe para falar da História nova.
Políbio já conhecia a História como universal e aplicava ao seu método as interrogações: Como? Porquê? Esta é uma visão eterna e moderna da História.
Não queria deixar de referir, neste trabalho, Fernão Lopes (1459) que se propõe, nas suas crónicas, "só a verdade". Mas, efectivamente, foi no séc. XVIII que Voltaire chamou a atenção para uma História económica, como de costumes, técnicas, de todos os homens; assim como, no séc. XIX, Chateaubriant e Guizot, propõem, uma História em evolução e explicativa. Michelet apela para uma História material e espiritual; François Simiand torna-se percursor ao denunciar os três ídolos para os historiadores: o político, o individual e o cronológico. Marx, um dos mestres da História nova, com a problemática interdisciplinar de longa duração e os modos de produção.
Finda a referência aos percursores, eis que surge em cena, no contexto das correntes historiográficas, a História nova que vai, a partir da primeira guerra mundial, com o contributo de Henri Berr, e, seguidamente, a escola dos Annales, formar uma nova perspectiva de se elaborar História. Pretende explicar o homem na sua totalidade. Este é subjectivo. Eis que a História se irá tornar subjectiva; este, como "objecto", está em permanente mutação; então a História ir-se-á tornar num sistema sempre em aberto.
Numa primeira fase surge, em 1929, a Revista dos Annales d'Histoire Economique et Sociale, fundada por Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1892-1966), que irá tornar possível a síntese destes percursores, pois desta "escola" dos Annales é que virão, numa segunda fase, a sair discípulos como Fernand Braudel, Robert Mandrou, Jacques Le Goff, e outros, que aplicarão aos seus trabalhos teorias expostas e testadas por estes mestres, fazendo "nascer" uma nova História.
Vão utilizar a interdisciplinaridade para poder compreender o homem total, e não só na sua inserção nos meios de produção e relações sócio-produtivas. Surge uma nova concepção do tempo e da História, porque esta "apela" para a geografia, inserindo o homem num espaço. Recorre à antropologia, à sociologia, à psicologia e psicanálise; faz-se uma História quantitativa e serial em que a estatística tem um papel importante. O historiador "constroi" o facto, mas para "um dia de síntese leva anos de pesquisa." (13) Dá-se uma associação da História às ciências humanas, investiga-se o mundo, a totalidade social, numa interacção a diferentes níveis: económico, cultural e social. Faz-se a História comparada das civilizações. Vitorino Magalhães Godinho, nosso historiador, fará parte desta "escola" dos Annales. Fala-nos do tempo como factor histórico. Temos, então, o sincrónico (o simultâneo), que nos reenvia para o diacrónico (sucessão no tempo). Estático e dinâmico, mudança e continuidade. Não mais faz sentido uma abordagem da História só no plano sincrónico, como faziam os positivistas.
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Notas:
(12) - Engels, F., cit. in Patrick Gardiner, «Teorias da História», Teste de História, 12º ano, 1988.
(13)- Braudel, F., cit. in Carvalho, J. B. de, «Da História Crónica à História Ciência»,pp. 74.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Quanto ao historicismo, que teve como principais cultores Collingwood, Benedetto, Croce, e Leopold von Ranke, era tido como o conhecimento do espírito e acção do pensamento. Estes historiadores-filósofos eram de opinião que o conhecimento histórico é o conhecimento do que o espírito realizou no passado e, ao mesmo tempo, a reconstituição e perpetuação no presente. O historiador, através do seu pensamento, é que vai reconstituir o passado. Torna-se, então, uma História subjectiva, pois tem algo do pensamento do historiador.
Collingwood diz que o historiador tem que reconstituir o que se passou na mente dos seus personagens; o leitor ao ler, deve reconstituir o que se passou na mente do historiador.
Leopold von Ranke tenta reconstruir o passado e faz uma História essencialmente política.
Eis que, finalmente, me encontro, nesta minha 'viagem' no tempo, naquele momento da historiografia considerado bastante importante, e que, penso, mesmo 'ultrapassado', não se poderá ignorar ao estudarmos História: é o materialismo histórico que, baseado na dialéctica hegeliana, pretendeu elaborar uma teoria científica da História.
Esta concepção materialista da História não deve, talvez, atribuir-se exclusivamente a Marx e Engels. Quando Alexandre Herculano escreve: "os partidos representam os interesses das diversas classes" e quando afirma ser absurdo sujeitar "a ordem dos acontecimentos sociais às mudanças das raças reinantes..." (8), como homem de ciência e historiador, situa-se na linha de evolução e de revolução que conduz a Marx, assim como também a Guizot, que tinha já uma ideia bem clara da importância primeira da História económica e social relativamente à política. Estes historiadores provam que existia um esforço nesse sentido. O próprio Marx escreve em 1852: "não sou eu que tenho o mérito de ter descoberto nem a existência de classes na sociedade moderna, nem a luta entre elas. Muito tempo antes de mim, historiadores burgueses tinham descrito o desenvolvimento histórico desta luta de classes." (9)
Efectivamente Guizot tinha escrito: "antes de se tornarem causa, as instituições são efeitos; a sociedade as produz antes de ser por elas modificada; (...) a sociedade, a sua composição, a maneira de ser dos indivíduos, segundo a sua situação social, as relações das diversas classes de indivíduos...;(...) para conhecer as condições sociais é preciso conhecer a natureza e as relações das propriedades." (10) Eis que Guizot fala em relações de propriedade, Marx viria a falar em relações de produção. E dirá:"não é a consciência do homem que determina a sua existência, mas, pelo contrário, é a sua existência social que determina a sua consciência."(11)Por isso, esta historiografia marxista surge com um carácter inovador em que o homem será o 'motor' dessa mesma História, inserido num contexto social que a determina. Inovadora, também, é a sua nova perspectiva estrutural sob uma visão economicista e materialista.
Os modos de produção das sociedades, como o esclavagismo, o feudalismo, o capitalismo, levaram a que Marx e Engels vissem a História como uma permanente luta de classes. Oprimidos e opressores travavam, através do tempo, lutas que, mesmo desiguais, levavam a uma alteração de estrutura que teria por fim a extinção de 'classes.' Uma sociedade sem classes, ou o comunismo científico, era o objectivo proposto por Marx.
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Notas:
(8) - Carvalho, J. B. de, «Da História Crónica à História Ciência», Herculano, A.,in: «Cartas sobre a História de Portugal», pp.94/97/99.
(9) - Idem pp.103.
(10) - Idem pp. 91, in: «Essais Sur l'Histoire de France», pp.61.
(11) - Idem, pp.107, in «Etudes Philosophiques» de K. Marx e Friederich Engels, Paris, 1968, pp.151.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Surgem, então, durante o séc. XIX, quatro correntes históricas: o romantismo, o positivismo, o hitoricismo e o materialismo histórico protagonizadas por historiadores como François Guizot, Alexandre Herculano, Tierry, Mignet, Thiers, Michelet, Auguste Comte, Marx e Engels.
Para Guizot o facto histórico não é apenas o acontecimento. Este dá um realce especial à História económica e social e relega para segundo plano a política, uma vez que considerava as instituições políticas como parte integrante da própria sociedade e esta devia, por isso, ser estudada primeiro, quer no seu particular, quer no geral. Já Guizot via na luta de classes o motor do progresso histórico.
Para Tierry também a História do povo anónimo estava em primeiro lugar: deixou de parte a História política e militar, pois considerava que "o progresso das classes populares era mais importante que toda a História dos reis." (6)
Aqui terei que fazer referência ao nosso historiador Alexandre Herculano, que seguiu Tierry quando se insurge contra a História das classes reinantes. "A biografia dos indivíduos não pode caracterizar a História da sociedade." (7) Considerava que a burguesia estabelecia um traço de união entre o pobre e o nobre. Dava, por isso, importância à classe burguesa da altura, que considerava o motor dessa mesma sociedade. As questões políticas de classe sobrepõem-se, em Alexandre Herculano. Na opinião de Guizot, a historiografia estava em crise e a sua produção era quase nula. Escreviam-se memórias dispersas. Então, estes historiadores que, como Guizot Tierry e Mignet, eram jornalistas e políticos, vão dar importância aos aspectos sociais.
Após esta crise, coube, de facto, a estes historiadores liberais e românticos ampliarem e renovarem o campo da investigação histórica. Impõe-se o carácter científico; quanto ao método e objecto da história alarga-se. O historiador vai dar igual valor aos aspectos políticos e sociais, ideológicos e económicos, por ser o conjunto destes factores que forma a civilização.
Michelet é considerado o percursor da concepção da História total. Considerava-se "iluminado" pelo passado, que olha de uma nova forma. Novos conceitos são estabelecidos para se compreender melhor a alma nacional, uma vez que cada civilização tem características próprias, que só se compreendiam integradas num processo evolutivo, no qual se desse igual importância ao passado e ao futuro. Nesta visão histórica romântica, a cada época corresponde um determinado valor, e consideravam que teria sido na Idade Média onde nasceu a alma de um povo. A estes processos nacionalistas de análise histórica eram aliados métodos intuitivos que lhes permitiam captar a realidade concreta.
Também os românticos possuiam uma visão educativa e integral da História. Contudo, aquilo que Vitor Hugo dizia acerca deste período - "o romantismo é a liberdade na arte" - liberdade essa que se verificava também nas novelas de Balzac e Stendhal, irá conduzir a que a historiografia romântica seja como um "romance" do passado, mas já sem as características da História, crónica e narrativa de batalhas e guerras, dos feitos dos generais, de um grande homem.
Na segunda metade do séc. XIX surge, nesta minha 'viagem' pelo passado e pelas diversas formas de fazer História, uma corrente ou tendência positivista, que vê na História uma ciência exacta. Auguste Comte seu principal impulsionador, defende que seja possível aplicar ao estudo da História as mesmas leis pelas quais se rege a evolução biológica. É possível elaborar leis, ter um objecto e método definidos. O historiador deve, primeiro, determinar os factos e, em segundo lugar, estabelecer as leis.
Mas estas leis eram obtidas através da persepção sensorial e da generalização dos factos através da indução. A História universal é posta de lado, os factos deixam de ser estudados dentro de uma conjuntura. O papel do historiador tornou-se passivo, pois o sociólogo (Auguste Comte fundou a sociologia como uma ciência) é que interpreta os factos, e as próprias leis são estabelecidas através da sociologia. É uma História de curta duração, sincrónica, onde não se estuda a História total, mas sim o acontecimento. Aplicavam os métodos das ciências da natureza à interpretação da História: fora dos textos não havia História pensável. Assim, para os positivistas, fazer História consistia em abstrair do facto os seus conhecimentos, por isso, o historiador não constrói a História mas "redescobre-a". Recorriam a três ciências auxiliares da História: a paleografia, a filologia e a diplomática. faziam uma crítica histórica que se baseava numa crítica interna e externa, de forma a obterem a exactidão do facto histórico. O que acontecia era que só podiam fazer uma História episódica, onde não existia qualquer articulação das rubricas em relação umas às outras. Ficam ao nível dos acontecimentos artificiais, como observadores indirectos, e são a favor de uma História política tradicional(os grandes acontecimentos).

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Notas:
(6) - Carvalho, J.B.de, «Da História Crónica à História Ciência»,pp.89.
(7) - Idem. pp.94/95

"A Nova História" (continuação)

Mas eis que, neste meu deambular através do tempo, logo me encontro no séc. XVIII, em que começam a surgir ideias revolucionárias que enfraquecem as estruturas do antigo regime. Surge, então, a corrente racionalista ou iluminista, que se liga a este evoluir de pensamento político, social e económico. O capitalismo surge como força económica. A Europa é enriquecida pela dominação colonial e o afluxo de capitais. A burguesia mercantil e industrial controla as forças produtivas e passa a deter o aparelho do estado.
Perante semelhantes modificações, o objectivo da História e o seu método ir-se-iam igualmente alterar. O cosmopolitismo, a nova classe dominante, é agora a atracção dos historiadores deste tempo. Evitam o estudo da Idade Média e, apesar de estarem bem informados e serem eruditos, procuram como fontes históricas testemunhas orais, narrativas de viagens, fragmentos de informação. Esta é uma crítica expressa por Georges Lefebvre à história racionalista. Voltaire e Condorcet foram os historiadores talvez mais importantes desta época. Voltaire contrapõe a História da sociedade à História das batalhas, reis e grandes senhores, mas ainda são os grandes homens a resolver os conflitos. Praticaram uma História em que o povo, enquanto massa trabalhadora e produtora de riqueza, é posta à margem. Enquanto História civilizacional, são analisados os factores económicos, sociais e culturais que fazem evoluir a História.
Será, porém, nos finais do séc. XVIII que vamos encontrar uma reacção a esta forma de fazer História. Porque, mesmo que Voltaire e Condorcet tivessem contribuído para alargar os horizontes da História, ao alertarem para a necessidade de se não esquecer "a massa das famílias" Voltaire acreditava que devia ser um "déspota" esclarecido a conduzir os destinos dos povos. Ao contrário, Rousseau propõe a necessidade de se formar um povo esclarecido, o que implicava cortar com o pensamento elitista. Para que se desse esse esclarecimento, havia a necessidade de o investigador estudar o passado, dedicar-se ao conhecimento de épocas diferentes da sua e verificar a sua evolução. Vivia-se, então, o período romântico que implicou todo um movimento cultural, artístico e intelectual.

(continuação)

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Mas, e fazendo regressar a minha 'máquina do tempo', pressupondo que a consegui e viajo nela, eu volto a Marc Bloch, esse sim, um historiador mais do meu tempo, para registar palavras suas às quais logo aderi: "evitemos retirar à nossa ciência o seu quinhão de poesia."(5) É, pois, apoiando-me neste quinhão, que já era considerado por Heródoto como pertencente à História, que eu vou avançando através desta viagem.
Regresso à antiga Grécia, que foi a percursora da historiografia moderna. Encontro-me então com Políbio(208 a.C. a 128 a.C.)- político grego deportado para Roma - que, sendo um dos melhores seguidores de Tucídides, já concebia a História como universal, ou seja, abarcando o mundo civilizado equivalente ao mundo romano. Tinha uma concepção da História como "Mestra da Vida". Expressou a ideia de que a História se processava por círculos, o que veio a exercer grande influência no movimento renascentista. Lá saltei eu da 'máquina do tempo'! Regresso já de seguida para estudar os historiadores romanos de maior valor, e eis que marco entrevista com os próprios: Júlio César, Tito Lívio, Salústio e Tácito.
De Júlio César e Tito Lívio sei que a sua História era fragmentada e que, por vezes, os acontecimentos não tinham ligação uns com os outros.
Tito Lívio escreveu a História de Roma desde as origens até à época em que viveu, dividida em décadas. De carácter nacional e patriótico, enaltece a lenda e os primitivos costumes romanos. Não se preocupa, porém, com a explicação dos factos que relata.
De Tácito fiquei a saber que possuía um método mais filosófico que os anteriores. Seguiram Tucídides e Políbio e não introduziram, ao que parece, grandes alterações no método e na concepção histórica herdade dos gregos.
Que bom seria que pudéssemos regressar ao passado, tal como fazemos quando estudamos História! Continuemos esta viagem ainda sob a alçada da narrativa, porque esta é, efectivamente, aquela que mais ligada está a esta concepção de fazer História.
A concepção cristã do mundo substituiu, após o declínio do império romano, (desde o séc. I e II), a concepção historiográfica importada da civilização greco-romana. As estruturas mentais e intelectuais romanas são progressivamente minadas a partir do séc. IV e V da nossa era. A História tinha por objectivo a execução dos desígnios divinos, pois os homens cumpriam a vontade de Deus, extensível a todos os povos. Assim pensava S. Agostinho. Por isso, esta História cristã de base universalista era repetitiva, cíclica e determinista.
Mas eis que, vindos da longínqua Grécia e Roma, viajando no tempo, nos aproximamos da historiografia medieval, em que surgem (séc. X e XI) os Anais e as Crónicas de carácter moralista e humano, mas ao serviço da política, pois, essas crónicas, eram as dos reis, das batalhas, quase sempre vistas do lado do vencedor.
A esta fase de invasões, formação de estados, conflitos sociais, que os anais e as crónicas relatam, vai seguir-se uma historiografia (do séc. XV ao XVII) que porá em causa o teocentrismo e a escolástica, apesar de permanecerem, na sua essência, valores cristãos. Roger Bacon nega o aspecto transcendente e divino da História: o objectivo da História era registar e recordar o passado nos seus verdadeiros factos.
A constituição de arquivos e bibliotecas, a aquisição de obras de arte, permitiram uma universalização da cultura, motivada também pelo incremento de novas técnicas de difusão e de impressão.
Os descobrimentos põem em relevo outras culturas, e verifica-se um ruir da ideia de superioridade da cultura ocidental. A mentalidade deste tempo assume a descrença em conceitos absolutos que imperavam desde a Idade Média. A dúvida sistemática instala-se. Aos historiadores vai ser dado observar com maior abertura crítica e é-lhes dada a capacidade de escolha. A História apresenta-se como o ensino dos jovens, com um carácter explicativo, pragmático e oratório; por isso, há necessidade de análise do passado humano. A História retoma a sua função educativa, com a intenção de formar bons estadistas, iluminados. O homem é encarado como motor de todos os acontecimentos, por Maquiavel. Quanto às técnicas de estudo e investigação histórica, não se verifica um tão grande alargamento como quanto à temática. No séc. XVII, com o incremento dos transportes e a possibilidade dos contactos com outras regiões, os historiadores inovam os seus processos de organização de trabalho. Surge então a diplomática (estudo dos diplomas) e a paleografia (estudo dos esqueletos antigos), que passam a fazer parte da investigação histórica. Porém, o predomínio estético mantém-se em relação ao conteúdo científico. As ciências físicas e naturais e a matemática avançam em relação à História.
E avançam porquê? Talvez porque se vivia um tempo em que era necessário preservar a continuidade das monarquias absolutas. Mediante todos os conflitos religiosos e sociais deste meado do século na Europa, a História cumpre o papel de dar aos monarcas absolutos um estatuto de poder divino na Terra, justificando assim o poder real. Encontrava-se ao serviço do poder e da política, ficando para segundo plano os factos económicos e sociais. Bousset, que defendia esta corrente historiográfica, retorna, no séc. XVII, ao conceito medieval da História.
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Nota:
(5) - Bloch, Marc, «Introdução à História», pp.15.