segunda-feira, 5 de março de 2012

O Segundo Modernismo em Portugal

Lisboa, Eugénio, O Segundo Modernismo em Portugal, Biblioteca Breve, Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, 1984, Ministério da Educação.

RECENSÃO CRÍTICA

O livro de Eugénio Lisboa sobre o segundo modernismo está dividido em quatro partes: Orpheu e depois; O segundo modernismo: a Presença; Balanço do Movimento; e Post-Scriptum; e, ainda um apêndice intitulado Revisitar os Modernismos, que transcreve integralmente a palestra que proferiu em Madrid, na qual retoma o assunto tratado nesta obra e que vem acrescentar dados que reforçam as suas ideias sobre a Presença e o segundo Modernismo. Em Anexos, além das notas ao texto, são-nos dadas a conhecer "algumas opiniões críticas sobre a "Presença", uma cronologia, e lista de colaboradores da mesma, e bibliografia sumária que nesta edição foi ampliada, conforme nos diz  no seu prefácio.
Após uma breve historiografia sobre a situação que se vivia na Europa no período em que surge em Portugal o "Orpheu," e uma análise muito pessoal do mesmo grupo modernista, Eugénio Lisboa passará todo o resto do livro a realçar os méritos da "Presença" e dos seus colaboradores mais importantes e a traçar as linhas mestras a que obedeceu a elaboração da revista, dando-nos uma panorâmica do seu amplo programa. Esse realce tem como objectivo combater todas as críticas que têm sido, ao longo do tempo, feitas à "Presença" e aos seus fundadores e orientadores.
_______________________________

(continua)   


REVER

Hoje vou começar por concluir um dado da Bibliografia de Os Jornais e a Cultura, que pode, eventualmente, ter interesse para os meus leitores. Aqui fica o nome completo do livro, do autor e co-autor, com as minhas desculpas. WARREN K. Agee, Nelson Traquina, O Quarto Poder Frustrado, Os meios de Comunicação no Portugal Pós - Revolucionário, Lisboa, Ed. Vega,  [197-]. 
Rever é o título de trabalhos elaborados para literatura e teoria da literatura. São recensões e aulas que preparei , que hoje considero rascunhos, mas que, no entanto, foram entregues aos professores e fazem parte deste espólio. 
A recensão sobre o livro O Segundo Modernismo, de Eugénio Lisboa, foi realizada no 1º ano da Faculdade, para a cadeira de Literatura Portuguesa I , assim como: A Estética da Recepção e a crítica da Razão Impura,  para a cadeira de Introdução aos Estudos Literários. Claro está que era a primeira vez que me introduzia nestes trabalhos que competem aos críticos literários, logo, a pessoas com experiência de causa. As recensões, eu só as conhecia da experiência da leitura. O que me surpreende hoje é a audácia com que me metia por caminhos nunca antes trilhados e como escrevia com uma tão grande liberdade de expressão e de pensar. Crítica acerada própria de quem escreve pela sua própria cabeça e pela opinião formada exclusivamente pela leitura feita do livro em análise. Este primeiro trabalho deve ser lido mesmo como primeiro e daí podem tirar as vossas conclusões, queridos leitores do meu blogue. Vamos então à leitura. 

domingo, 4 de março de 2012

Os Jornais e a Cultura (Conclusão)

VI Conclusão

Ao concluir este meu trabalho, queria referir a dificuldade que tive em entrar em contacto com os jornalistas e colaboradores de jornais aos quais me dirigi. Ou se encontravam doentes, ou não presentes, que ficavam com o meu número de telefone e contactavam, mas tudo isso era em engano.
A realização das entrevistas, em si, foi difícil, porque improvisadas, e era a primeira vez que realizava este tipo de trabalho, mas este foi-me facilitado pela boa vontade manifestada pelas pessoas que mas concederam.
No Departamento de Comunicação Social da nossa Faculdade encontrei um bom acolhimento, que quero aqui registar, assim como na Biblioteca do  Diário de Notícias.
Por tudo o que li e ouvi para realizar este trabalho, ficou em mim uma certa tristeza ao verificar que, realmente, o "Quarto Poder" ainda não é exercido em pleno em Portugal e refiro, a esse propósito, o que disse Silva e Costa, jornalista de Lisboa, no II Encontro Afro-Luso-Brasileiro de jornalismo: Estou convencido de que o jornalismo português, se passar a ser menos troca de favores - com maçons e cobertos, com os dirigentes partidários, com os responsáveis de movimentos e grupos de pressão ideológica e certos interesses económicos com os detentores de poderes nos média - e reduzir a sua carga de literariedade reforçará extraordinariamente o seu papel de comunicador de cultura. (pp.61)
Desejava manifestar a esperança de que "a verdade fosse o limite da liberdade do jornalista," uma vez que penso igualmente que "o destino da liberdade está intimamente ligado aos destinos da imprensa" e se "uma notícia não é um poema, um poema pode ser uma notícia. De uma nova escrita, ou de um tema novo".
Termino fazendo minhas as palavras de António Rangel Bandeira: "o jornalismo deve gritar para os espaços abertos do Universo exigindo um mundo que substitua o actual com a sua coorte de miséria, violência e cegueira. E gritar de tal modo e com tal intensidade, que o céu fique rubro de esperança."

Lisboa, Abril de 1989

_________________________
BIBLIOGRAFIA

K. AGGE, Varren e Traquina, Nelson, O Quarto Poder Frustrado

LAVOINNE, Yves, A Imprensa, Colecção Trimédia, Editora Vega

AUTORES VÁRIOS, Jornalismo e Literatura, Actas do II Encontro Luso-Afro- Brasileiro, Colecção Trimédia, Editora Vega, s. d.

RODRIGUES, Graça Almeida, Breve História da Censura Literária em Portugal, Biblioteca Breve, 1ª ed., 1980, ICALP.

LOPES, Óscar, Entre Fialho e Nemésio, Temas Portugueses, Editora INCM, 1987.

BARTHES, Roland, O Prazer do Texto, Colecção Signos, Edições 70, 1988.

DACOSTA, Fernando, "Os políticos utilizam o corpo como território para dominar os outros" in JL, 1984, nº 87, pp.11, de 3 a 12 de Março.

ESPERANÇA, Eduardo Jorge, "As vozes e os silêncios do 'Jornalismo Cultural'", in JL, nº 101, pp.4-5, de 12 a 18 de Junho de 1984.

SANTOS, Odete, "Ensinar Português na Escola de Hoje" in Diário de Notícias, pp.14, de 26 de Março de 1989.

Jornal Expresso.

_________________________________

ANEXOS

Porque não me foi possível viver por dentro os jornais, uma vez que isso implicaria a minha permanência dia a dia numa empresa jornalística, esta foi a forma que encontrei de ver os jornais: de cima, ou seja, escolhendo, dos muitos que folhei, temas que de algum modo me tocaram. Essa escolha não foi totalmente arbitrária, pois ela está relacionada com o meu trabalho de texto e, ao mesmo tempo, com a minha disciplina de Introdução às Ciências da Cultura, e o Curso de Estudos Portugueses.
Procurei, com estas páginas de jornais, ilustrar o melhor possível toda a matéria que nos tem sido ministrada nas aulas.
___________________________________




sábado, 3 de março de 2012

V - Que Futuro para os Jornais

Numa entrevista, em 1951, Albert Camus caracterizava a profissão de jornalista como "uma das mais belas" que conhecia, "justamente porque ela força o próprio jornalista a julgar-se a si mesmo." (20) Se o jornalista souber julgar-se a si mesmo, então naturalmente caminharemos para um futuro melhor para os jornais. Para isso irá contribuir igualmente a formação superior em Ciências Sociais e Humanas, dos jornalistas, porque penso que "o jornalismo, será  sempre aquilo que for o jornalista, quer dizer, resultará fundamentalmente da sua maturidade cultural e humana, ou seja, em última análise do seu sentido de responsabilidade," (21) porque "é preciso não esquecer que o jornal constitui, para milhares de pessoas, o único veículo de transmissão de cultura," (22) e, uma vez que "o jornalismo aborda todos os campos do conhecimento humano, (...) se ele é universal por dentro, também o é por fora, quer dizer, os seus leitores constituem um verdadeiro caleidoscópio de interesses mais diversos." (23)
Por esse motivo, desejo que, cada vez mais, os jornais pensem nos seus leitores, múltiplos e diversos, deixando a prática de um discurso hermético e complexo repleto de metáforas, para utilizar no futuro uma simplicidade de linguagem que aumente o prazer de leitura, aumentando também o conhecimento da nossa própria cultura: falar essencialmente de nós, portugueses, pois como Kayserling afirma: "a cultura é sempre filha do espírito em núpcias com a terra" e que  "o homem não é ainda filho legítimo de uma terra de que não pôde conquistar as matérias espirituais senão em escala extremamente reduzida." (24)
Que no futuro os jornais se esforcem por alargar essa escala, proporcionando um conhecimento de nós próprios, numa perspectiva não só sociológica, mas mais, e cada vez mais, antropológica.
_________________________
(20) - ARAÚJO, Luís, in Jornalismo e Literatura, Actas do II Encontro Afro-Luso- Brasileiro, pp.115.
(21) - Idem.
(22) - Idem.
(23) - BANDEIRA, António Rangel, Idem, pp.73.
(24) - PEREIRA, António Carlos, "O papel do Jornalismo na Formação Cultural" in obra citada.



IV - As Relações da Sociedade com os Jornais

Na intenção de contribuir  para a formação cultural dos leitores, têm os jornais contado com a colaboração dos nossos melhores escritores. Isso é-nos dado verificar quando sabemos que em Portugal os nossos escritores, de uma forma ou de outra, praticaram jornalismo e, através dele, se revelaram: uns como colaboradores, outros mesmo como jornalistas que depois se transformam em escritores a tempo parcial. Alexandre Herculano, Antero de Quental, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Eça de Queirós, (que fundou em um jornal em Évora, onde ele mesmo se desdobrava a escrever todas as rubricas, mesmo aquelas que eram crónicas do Rossio, e que ele inventava como se realmente fossem de colaboradores em  Lisboa), Raúl Proença, o próprio Camilo Castelo Branco, colaboraram grande parte da sua vida com os jornais. Cesário Verde publicou quase toda a sua obra através dos jornais. Igualmente Raúl Brandão, com o seu estilo descritivo, praticou o jornalismo. Nos nossos dias temos imensos exemplos de escritores que são , ao mesmo tempo, colaboradores de jornais, ou mesmo jornalistas. Augusto Abelaira publica no JL o seu livro: O último animal que; Hélia Correia escreve igualmente a Fenda Erótica. Fernando Namora e Alexandre O'Neil colaboram nos jornais. E tantos, tantos outros. Verifica-se, como diz Fernando Dacosta, que há uma tradição literária no jornalismo português. No fundo, só começou a haver separação entre o jornalista e o escritor, a partir do momento em que a profissão foi organizada. mas esse cruzamento entre as duas escritas continuou sempre a existir,  (19) considerando, por esse motivo, que a crónica é muito importante em Portugal. Através destas crónicas circulam e germinam ideias que vão contribuir para a formação cultural dos leitores.
Nas entrevistas que efectuei para este trabalho, verifiquei que os jovens lêem pouco os jornais diários, procuram mais os semanários e os jornais de desporto e espectáculos. Porém referiram que é importante ler os  jornais, inclusivé  para se manterem informados de modo a terem mais facilidade na prova de acesso do 12º ano. Igualmente foi abordado o aspecto da imprensa não ser tão divulgada na província, e de não haver o hábito de leitura do jornal tão acentuado como em Lisboa. Todos referiram a importância da imparcialidade e seriedade do jornal, e concordaram no perigo que se põe quando os mesmos são manipulados por grupos de pressão e distorcem as notícias que podem "queimar" pessoas individualmente, ou mesmo grupos. Foi focado o aspecto do preço dos jornais, que desmotiva a sua compra, em virtude de, no presente, serem muito mais caros que antigamente.
Interessante foi, também, a referência ao jornal como forma de manter, sobretudo as pessoas da capital, em comunicação, uma vez que se vive mais solitário do que na província. Não consideraram  a licenciatura em Comunicação Social de primordial importância para se fazer um bom jornalismo.
O Professor Nelson Traquina co-autor do livro em que me apoiei, em parte, para elaborar  este trabalho, referiu na sua entrevista a importância da Licenciatura em Comunicação Social, para que se possa verificar e concretizar uma melhor qualidade dos jornais, assim como a importância de se definir o que é a notícia. É preciso compreender as mudanças da sociedade para não ser ultrapassado pelas próprias mudanças; daí a importância de um curso superior em Ciências Sociais e Humanas, uma vez que o jornalista não é um técnico. Apesar de reconhecer que há uma evolução que aponta para a melhor qualidade dos jornais, continua a pensar que o "quarto poder" ainda é frustrado em Portugal.
___________________________________
Notas:
Junto com este trabalho foram entregues cassetes com as entrevistas gravadas: a uma jornalista do Diário de Notícias, ao Prof. Dr.  N. Traquina e aos jovens que responderam às questões colocadas. Não foram transcritas para a escrita, com excepção de algumas opiniões.
(19) - DACOSTA, Fernando, in entrevista ao JL, nº 87 de Março de 1987.     
  

sexta-feira, 2 de março de 2012

IV - As Relações da Sociedade com os Jornais

Além do problema gerado pela alta taxa de analfabetismo, que já foi referida, têm os jornais como herança o de lhes ter sido negada a crítica durante os longos anos em que foram censurados e, assim, a sociedade se foi desacreditando da imprensa, uma vez que ela representava um perigo para o poder instituído, e, por esse motivo, lhe era retirado ou posto em causa o seu devido mérito. 
Hoje, 1989, com a nova alteração da Constituição em discussão no Parlamento, põe-se novamente em questão o problema da liberdade e posse da imprensa. Se uma parte política pretende a desnacionalização completa dos jornais, alegando que só assim é que o "quarto poder" pode informar e formar, aperfeiçoando o equilíbrio entre os três poderes clássicos, outra parte defende que as empresas jornalísticas devem permanecer estatizadas, ou intervencionadas, para que esse poder não possa ser arbitrariamente administrado de molde a favorecer as forças políticas em presença,  ou vir a ser utilizado por grupos que irão possuir esses jornais. Já podemos observar que a venda dos jornais maioritariamente  intervencionados pelo Estado, ou mesmo sua propriedade, nem sempre tem sido de molde a proteger os jornalistas e os seus postos de trabalho. Quando foram abertas as propostas para a compra de um determinado jornal, este foi adquirido por uma outra empresa jornalística com uma pequena margem em relação à que os jornalistas se proponham pagar, para eles mesmos ficarem a dirigir o seu jornal. Isso não foi levado em atenção, o que originou que o director se demitisse e assim se criasse mais uma situação que poderá pôr em risco a isenção e autonomia dos jornais.
"O jornal é uma ideia de financeiro e é, também, a batuta do poder", declara Leo Ferré. Creio que é contra esta possibilidade de o jornal se tornar um batuta do poder que se deve pugnar.
"Até metade do século XVIII o jornal é uma obra periódica que contém extractos dos livros imprimidos e memorandos das descobertas que todos os dias se fazem no domínio das artes e das ciências. Esse jornal correspondia, pois, em parte, à nossa imprensa especializada literária, artística ou científica. (...) Grandes mudanças se deram entretanto e, na sociedade do século XIX, quando o êxodo rural se acelera e os laços tradicionais se distendem, o jornal tem uma importante função de coesão social." Segundo a fórmula de Tocqueville: "se não existissem os jornais, quase não existiria acção comunitária."  Se refiro todas estas declarações, é para reforçar o quanto considero importante a acção dos jornais na sociedade e a sua influência na formação cultural dos leitores.
"Na década de 70, no decorrer das suas controversas conferências sobre o ensino, Nietzsche perorava essa assinalável revolução cultural: é no jornal que a especificidade da nossa época relativamente à cultura atinge o seu ponto culminante: o jornalista, o grande mestre do instante, tomou o lugar do grande génio, do guia definitivo, do doador do instante." Desenvolve-se, a partir de então, uma nova concepção de jornalismo, que insiste,  sobretudo, na sua função cultural. Brecht atribuía uma réplica ao criado Matti: "se um professor não souber nada de nada, o pior que pode acontecer é que a aldeia inteira não seja capaz de ler o jornal." (18)  Era reconhecido aos jornalistas o papel de educador de opinião.
Num artigo intitulado «Ensinar Português na Escola de Hoje», inserto no Diário de Notícias de 26 de Março do ano corrente, Odete Santos, professora do Ensino Secundário, afirmava a dado passo: "os jornais - nomeadamente os semanários - pesam-nos nos braços, com os seus suplementos intermináveis. Grande parte da população que sabe ler, neste nosso País, informa-se, forma-se, distrai-se através dessas resmas de papel. Não pode, a escola institucional divorciar-se dessa escola paralela.
Reabsorver, na aula de Português, esses discursos plurais é apostar, a todo o custo, no projecto de evitar que os nossos jovens sejam consumidores acríticos, acéfalos, desses produtos culturais."
Porém, numa sociedade onde o saber se encontra desigualmente repartido, esses propósitos pedagógicos deparam ainda hoje com enormes dificuldades. Estas têm que ser esbatidas através dum jornalismo cativante que nos traga algo do quotidiano de cada um. Marshal Mac Luhan confirmava esta mutação: o antigo jornalista era objectivo; o novo jornalismo é imersivo: exige que se entre em contacto com a situação mergulhando nela.
____________________________
Nota:
(18) - BRECHT, B. Mestre Puntila e o seu criado Matti, Teatro Completo, Ed. Portugália. 
   

quinta-feira, 1 de março de 2012

III - Os Tipos de Jornais

O Diário de Notícias é, quanto a mim, o que contribui diariamente com um maior número de rubricas que ajudam o leitor a cultivar-se através da leitura do jornal.  Tem diversos suplementos com matérias específicas cada dia da semana, que são um contributo valioso para a divulgação cultural. A revista a cores que sai com no jornal de Domingo, aborda assuntos como o teatro, o cinema, fotografia, pintura, novos livros, etc.; assim como o suplemento cultural, Caderno -2 -, que, ao longo dos anos, tem primado pela qualidade e tentando sempre a isenção e o bom jornalismo. Trata de assuntos cativantes e actuais, como sejam, a educação, a arte, a história e a crítica literária na sua revista de livros, que, durante muitos anos foi assinada por João Gaspar Simões, que contribuiu para dar a conhecer e lançar muitos livros e autores. Hoje são essas críticas literárias efectuadas por Maria Lúcia Lepeki. No entanto, vou abrir um parenteses e dar uma opinião pessoal, uma vez que penso que devemos ler os jornais sob uma perspectiva crítica. Não devia criar-se o hábito de todos os domingos ser sempre a mesma pessoa a fazer a leitura crítica de um livro; longos anos o fez João Gaspar Simões e creio que foi um erro. Temos tantos e bons profissionais de literatura, que deviam ser convidados a colaborar, porque assim estaremos novamente a formar mentalidades sempre por uma única perspectiva. Creio que se optassem por um pluralismo de colaboradores nesta rubrica, não cansava tanto sempre o mesmo género de escrita e análise e os leitores sairiam beneficiados.
Refiro aqui que numa das últimas aulas de Literatura Contemporânea, a 31 de Março passado, promovida pelo Departamento de Estudos Portugueses da nossa Faculdade, foi uma questão levantada por uma participante, que as críticas dos jornais levam a comprar certos livros, uma vez que, como disse a participante, quando se entra nas livrarias não é possível obter todos os livros que gostaríamos de ler; aí entra então a influência da crítica do jornal. O leitor compra porque o livro ou o escritor é mais referenciado. Neste caso, a pessoa em questão tinha comprado livros de Lobo Antunes em vez de João de Melo, uma vez que ambos tratavam a temática da guerra colonial, e confessava-se então influenciada pelos jornais nas suas compras, lamentando não conhecer nenhuma obra de João de Melo, que nessa noite nos dava a aula semanal. Foi, neste caso, focado o aspecto de os colaboradores dos jornais serem mal pagos e terem de ler dois a três livros por semana para depois fazerem as críticas, pronunciando-se, por vezes, sem aquela segurança na análise que devia ser dedicada à obra. Se anotei esta achega é porque mais uma vez confirmei o poder dos jornais quanto à temática que escolhem incluir nas suas páginas, e penso que, como diz Silva Costa: "é urgente recuperar para o jornalismo o estatuto de produtor cultural de primeira água, independentemente da sua relação com a literatura." (14) Porque todo o jornalismo deve ser cultural (15), e, como disse José Carlos de Vasconcelos, "a primeira coisa que deve caracterizar o jornalismo cultural é essa apetência para dar a notícia, (...) o que distingue o jornalismo, e até o jornalismo como género literário, é a utilização da linguagem como meio e não como fim, como no caso da poesia. (...) Para quem pretende atingir estratos que não só os dos iniciados, a necessidade de pôr as perguntas que o comum dos leitores poriam, é fulcral." (16) deve ser a verdadeira tentativa dos jornais quanto à temática a inserir nas suas páginas, pôr as perguntas que o comum leitor poria. "Interrogar o habitual, (...) talvez devamos fundar a nossa própria antropologia: aquela que há-de falar de nós, (...) o que há a interrogar é o tijolo, o betão, o vidro, as nossas maneiras à mesa, as nossas ferramentas, os nossos ritmos. Interrogar aquilo que parece ter deixado de nos surpreender." (17) Esta é, penso eu, uma criatividade de temas para os jornais, fazer com que "o mundo do jornalismo seja o próprio mundo", e não unicamente um mar de catástrofes e de notícias sensacionalistas.
_______________________________
Notas:
(14) - Silva, Costa, Jornalismo e Literatura, Jornalismo Português: Literariedade em excesso? pp.59.
(15) - Prado Coelho, Eduardo, in «Vozes e os silêncios do jornalismo Cultural», JL, nº 101, Junho de 1984, pp.5.
(16) - Vasconcelos, José Carlos de, Idem.
(17) - PEREC; Georg, A Imprensa, «Abordagens de Quê?»  
Esta