terça-feira, 5 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

O objectivo de alguns ministros era que as duas frotas navegassem em conjunto até à Baía sob o comando de António Teles. Mas Salvador contrariou de imediato essa solução e mostrou não se encontrar ainda preparado para fazer a viagem e a evidência de que não se entendia bem com o governador-geral do Brasil. Ele sentia-se capaz de assumir a inteira responsabilidade da sua missão. Escrevia: «Senhor, estou ansioso por servir, e é isso que tenho feito há trinta e dois anos, tendo atravessado a linha dezoito vezes. E a respeito de navegação marítima, e a ter a sorte nela, não me submeto a ninguém em Portugal; tenho sempre dado bem conta do recado... e quem deu boa conta de fortes, de frotas, de galeões e navios expedicionários quando era novo, parecerá que saberá como fazer isso agora.» Não se inibiu de dizer ao próprio Rei, que se não fosse assim, que nomeasse outro que o substituísse. Tanto ficou D. João IV a admirá-lo, que se demoveu imediatamente de enviar as duas frotas em conjunto. (Boxer, pp. 247/249)
A esquadra de Salvador chegaria ao Rio de Janeiro em 23 de Janeiro de 1648 e aí encontraria mais cinco galeões enviados por António Teles, com a recomendação de que partisse o mais breve possível para Angola, antes que no Recife se soubesse da sua expedição. De facto, em 19 de Abril de 1648 dava-se a primeira batalha de Guararapes, onde os holandeses foram derrotados pelos portugueses comandados por Francisco Barreto de Menezes. A vinda de escravos de Angola trazidos pelos holandeses, permitiria o seu reforço de armas contra os portugueses; por isso, era necessária a rápida recaptura de Angola.
Salvador preparava as provisões de alimentos e de sal, para a manutenção da sua tripulação, que era composta, segundo o próprio, por «lixo das cadeias de Lisboa» e em condições tão pobres que muitos morriam. Recrutou homens no Rio, a maior parte, e em S. Paulo, apesar de os paulistas serem avessos ao voluntariado, dizia Vieira, que eram dos melhores combatentes do Brasil. Os moradores do Rio concederam um empréstimo de 60.000 cruzados para financiar a expedição, talvez porque eram dos mais interessados nos escravos prometidos, mas também num esforço cooperativo digno de nota, uma vez que o próprio general da armada disse ao Rei que sem esse empréstimo a viagem não se tinha realizado. O seu espírito empreendedor e de diplomacia manifestava-se em tudo o que conseguia obter. Ele próprio e a família empregaram dinheiro nessa aposta arriscada.
A chegada da armada With ao Recife, dividiu as opiniões acerca da partida de Salvador, mas o general resolveu empreender a jornada a 12 de Maio de 1648. Com 15 navios, levava entre 1400 e 1900 homens e mantimentos para seis meses. Todos os navios, além dos seis galeões cedidos pela coroa, foram pagos pelos fundos angariados no Rio de Janeiro. Alguns dos navios eram ingleses; doutros não se sabe a procedência. (Boxer, pp.256/258)
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(continua)

segunda-feira, 4 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

No final do século XVII, dos 528 engenhos do Brasil, 136 eram do Rio de Janeiro, que produziam uma média de 2.630 arrobas (38 toneladas) de açúcar por ano (Schwartz, pp.215). Na década de 1630, 80% do açúcar vendido em Londres era oriundo do Brasil. A guerra da Restauração (1641-1668) e os compromissos da política externa de Portugal para com os seus aliados foram financiados em larga medida pelo aumento dos impostos que incidiam sobre a indústria açucareira. (Schwartz, pp.218)
Salvador Correia de Sá e Benevides era a pessoa indicada para combater os holandeses em Angola, no interesse de se manter o Brasil e, com ele, a própria existência de Portugal. Tinha poderio económico e o poder de conseguir as ajudas necessárias ao empreendimento. O Rei sabia da sua intrepidez no comando de navios e  do seu conhecimento do Atlântico. Recebia-o na corte como um conselheiro do mais alto valor e concedeu-lhe todas as regalias precisas e liberdade de acção. Nomeou-o capitão-geral e governador de Angola por decreto de 8 de Abril de 1647, e ordenou que lhe fossem dados dois galeões reais e tantos navios quantos fosse possível fretar a armadores privados.
Esses navios destinavam-se ao transporte de 600 homens que seriam recrutados em Portugal, Madeira e Açores. Salvador devia desembarcar em Angola para ajudar à construção de uma base fortificada que servisse de comunicação entre os defensores da Muxima e de Massangano. Não havia inicialmente o projecto de ataque a Luanda. Entretanto chegavam notícias de que a Baía corria perigo. Tinha-se dado o desembarque de Von Schoppe na ilha de Itaparica. Nesse mesmo dia iniciaram-se os preparativos de uma frota para socorrer a sede do poder no Brasil. Os navios que estavam destinados a partir para Angola foram, muitos deles, retirados a Salvador, assim como homens, munições e canhões que lhe tinham sido prometidos. Os pedidos do Conde de Vila Pouca de Aguiar, D. António Teles de Menezes, tinham de imediato prioridade. As duas frotas tinham sido preparadas com empréstimos de dinheiro conseguido pelo P. Vieira que era confessor e conselheiro do Rei, junto de cristãos-novos, seus amigos.
Durante este verão de 1647 discutia-se no Conselho Ultramarino a necessidade de atacar Luanda para retirar o poder definitivamente aos holandeses. No entanto, o objectivo oficial da missão a Angola era construir uma fortificação na foz do rio Dande, do Cuanza ou em Quicombo. Segundo Boxer, outros documentos relacionados com esta expedição mostram que desde o início esteve subjacente a ideia de expulsar os holandeses e recapturar a colónia. A própria nomeação de Salvador e as suas cartas-patente de governador e capitão-general de Angola, mostram-no. Também, porque era feita menção àquilo que era necessário para atacar os fortes de Luanda e para guarnecer a praça após a sua captura. Os documentos, no A.H.U., em Lisboa, são evidentes quanto a estas intenções.
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(continua)      

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

Tinham sido 60 anos de domínio espanhol que deixavam a Portugal parte do Brasil ocupado pelos holandeses e Angola em rebelião. Em 1640, a metrópole teria cerca de 2 milhões de habitantes e iria, ainda por mais 20 anos, suportar a guerra com os espanhóis e os holandeses.
Esse socorro, em defesa de Angola, não se mandou sem dificuldades e sem sacrificar o Rio de Janeiro que ficava sem defesa e provisões. Em carta ao Rei, deu conta dessa missão espinhosa. Partiria para Angola para combater e expulsar os holandeses que ocupavam Luanda há 7 anos.
De 1620 a 1623 tinham saído de Angola para Pernambuco 15.430 escravos, e para as minas americanas sairiam, por volta de 1630, cerca de 15.000 escravos por ano. (Barléu, 1974, pp. 42, 214) Se pensarmos que a História de Gaspar Barléu se destinava a enaltecer os feitos de Maurício de Nassau no Brasil holandês, perante estes dados, compreenderemos melhor o porquê de Nassau se ter deslocado para a conquista de S. Tomé e de Angola. Cornelis Jol tomava de assalto S. Paulo de Luanda, em 1641, e logo a seguir, era tomada a fortaleza da ilha de S. Tomé. O socorro enviado da Baía foi em vão, porque Nassau reclamou a anexação de Angola e Pernambuco. Quando deixou o governo em Maio de 1644, era evidente o seu domínio do Atlântico.
O "filão" de Angola eram os escravos, necessários ao desenvolvimento do Brasil e da América em geral. Para povoar e fazer trabalhar tão vasto e rico continente era necessária a mão-de-obra que faltava aos europeus. Os escravos eram o principal móbil do comércio. Em 1625, o governador João Correia de Sousa enviou cinco navios de Angola para o Brasil com um total de 1.211 escravos, dos quais 628 (49%) sobreviveram à travessia (Matoso, 1986, pp.35). O Brasil tornara-se numa sociedade de escravos, onde estes realizavam praticamente toda a espécie de trabalhos. (Schwartz, pp.247) P. António Vieira, contemporâneo de Salvador Correia de Sá e Benevides, escrevia nos seus Sermões do Rosário: 
«Gente toda da cor da mesma noite, trabalhando vivamente e gemendo tudo ao mesmo tempo sem momento de tréguas, nem de descanso: quem vir enfim toda a máquina e aparato confuso e estrondoso daquela Babilónia não poderá duvidar, ainda que tenha visto Etnas e Vesúvios que é uma semelhança de Inferno». (Schwrtz, pp.213)
...«Olhai para os dois pólos do Brasil, o do Norte, e o do Sul, e vede, se houve jamais Babilónia, nem Egipto no mundo, em que tantos Cativeiros se fizessem, cativando-se os que fez livres a Natureza, sem mais Direito que a violência, nem mais causa que a cobiça, e vendendo-se por Escravos.» (Sermão, 27º do Rosário) ...«Fê-los Deus a todos de uma mesma massa, para que vivessem unidos, e eles se desunem: fê-los  iguais, e eles se desigualam: fê-los irmãos, e eles se desprezam do parentesco...» (sermão 20º do Rosário) (Vilela, pp. 93)
Este é, talvez, um dos retratos mais fidedignos desta época. Nem o cativeiro dos Judeus na Babilónia nem no Egipto, se poderia comparar a semelhante cobiça e miséria humana. Os homens tinham deixado de ser irmãos, sendo-o de origem. Numa das suas Cartas dizia Vieira: «...eu já fora morto de dor do que vejo, se me não animara a viver da fé do que esperamos ver.» (a  Duarte Ribeiro Macedo, 27/3/1675)

domingo, 3 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

Salvador acabava os 6 anos de governo a restaurar fortificações, a promover o povoamento e a abrir caminhos novos. Para não se abster dessas obras promoveu o lançamento de impostos, o que levou os da Câmara a reclamar, em nome dos munícipes, e a dizer que nenhuma outra capitania tinha prestado tantos serviços ao reino. O Rei reconheceu esta situação e atribuiu as mesmas honras, isenções e privilégios aos cidadãos do Rio que tinham os munícipes da cidade do Porto.
A cidade de S. Sebastião, durante os seis anos do governo de Salvador, não diferia muito da pequena cidade descrita por Frei Vicente do Salvador duas décadas antes. O P. Ruiz Montoya que esteve durante quatro meses no colégio jesuíta do Rio, em 1637/38, descreveu o lugar como comparável a "um canto de um bairro na minha terra natal", a capital vice-real de Lima. Ele disse que os habitantes eram tão indómitos, que se matavam uns aos outros "como se fossem percevejos". No entanto, refere-se ao Governador com termos elogiosos e classifica-o como um verdadeiro amigo dos jesuítas. (Boxer, pp.113)
Entretanto, Salvador partia para Lisboa depois de ter pedido ao governador-geral, António Teles da Silva, para nomear um seu sucessor interino. Apesar de ter mostrado uma certa relutância, autorizou a substituição. Então o governo do Rio ficou entregue a Luís Barbalho Bezerra. Salvador de Sá partia cansado de mediar conflitos e das intrigas e calúnias maldosas pois, havia tempos, que se via cercado de inimigos. Já não suportavam a "oligarquia" dos Sás. (Norton, pp.40) Os soldados do Rio revoltaram-se, os exploradores do sertão queriam manter os seus privilégios, outros, como o Provedor de Fazenda, Domingos Correia, que foi demitido do seu posto, antes de ter terminado o prazo de três anos da sua comissão, para dar o lugar ao capitão Pedro de Sousa Pereira, que tinha casado com uma parente do governador, denunciavam-no e acusavam-no de irregularidades financeiras.
Acabou por ser ordenada uma devassa que, apesar de adiada muitas vezes, e de ter sido mandado fazer uma sindicância, não teve procedência  junto do Rei, porque em 25 de Março de 1644, Salvador Correia de Sá e Benevides foi nomeado General da frota criada para escoltar os navios mercantes entre o Rio e o Reino. Recebeu ainda a nomeação de deputado do Conselho Ultramarino, que era presidido pelo Marquês de Montalvão, anteriormente vice-rei do Brasil. Em 10 de Junho recebia o alvará que o confirmava como Administrador das minas de S. Paulo para continuar o esforço de descobrir novas jazidas. Outro alvará concedia-lhe o poder de galardoar com o hábito de Cristo. Como não podia exercer todos os cargos, ficou só com o de General da frota e delegou os seus outros poderes. 
Salvador partiu novamente para Lisboa, integrado no comando e na protecção de uma frota de açúcar que saía do Rio. Quando aí chegou, foi incumbido de conseguir na Baía e no Rio de Janeiro, socorro para Angola, onde várias nações negras se tinham revoltado contra Portugal, influenciadas pelos holandeses. (Lessa, pp.33)
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(continua)  

sábado, 2 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

Os colonos de S. Vicente aceitaram bem, mas alguns, de S. Paulo, continuaram revoltados, e atacaram o colégio a 13 de Julho, prenderam os padres e expulsaram-nos do planalto. Salvador escreveu a 6 e 20 de Setembro aos paulistas para acatarem, tal como os do Rio de Janeiro, estas novas directivas, mas estes ficaram surdos às ameaças do governador. Em Janeiro de 1641 voltava a escrever, mas foi completamente em vão. Salvador C. de Sá e Benevides estava resolvido a ir pessoalmente mediar o conflito, quando, entretanto, recebeu a notícia, a 10 de Março, da Restauração de Portugal. Serenaram-se os ânimos, mesmo que provisoriamente.
D. João IV, Duque de Bragança, era o Rei. Salvador de Benevides prescindiu dos bens que tinha no território espanhol e aderiu à causa portuguesa, tal como o Vice-Rei. Nesta questão, Boxer coloca bastantes reticências quanto à imediata adesão do governador e explana toda uma série de razões para que assim não tivesse sido. No entanto, as manifestações de regozijo descritas por todos os historiadores lidos, levam-nos a concluir, instintivamente, que Salvador se sentia português. Os anos do resto da sua vida seriam suficientes para provar isso mesmo.
O governador mandou fazer muitos festejos na cidade, que duraram dias e ficaram famosos. Foram um verdadeiro Carnaval. Abriu a sua casa a uma representação teatral e a banquetes, próprios da opulência duma colónia que glorifica o seu Rei. A 19 de Março de 1642 recebeu uma carta de El-Rei, quando estava a assistir a uma homilia. Sentiu uma alegria tão manifesta, que começou a beijá-la e colocou-a em cima da cabeça, para que todos pudessem ver que a coroa de D. João IV era, agora, a sua. Deram-se, de imediato, vivas ao rei e o governador e capitão-mor do Rio recompensou o mestre da caravela, que lhe tinha trazido a carta, com isenção de imposto, o que era uma competência da Câmara, mas ele próprio prometeu que a pagaria do seu bolso. (Lessa, pp. 25/26)
D. João IV confirmou os poderes de Salvador, como governador das capitanias do Sul com a administração dos quintos e da casa de fundição de S. Paulo, e a mercê do soldo de mestre de campo. Resolveu-se então ir a S. Paulo serenar a revolta da população. Deixou Duarte Correia Vasqueanes no governo do Rio. Chegou a Santos e receberam-no, mas os habitantes da serra danificaram os caminhos, cortaram as pontes e impediram a sua ida. Benevides contemporizou e escreveu novas cartas a aconselhar o acatamento e a obediência das ordens régias e a prometer esquecer as ofensas.Apresentou diversos pontos a cumprir para que um acordo se firmasse, o que veio a acontecer, embora precariamente, e regressou ao Rio de Janeiro. (Lessa, pp. 28/29)
Anos mais tarde, quando se deu a passagem do controle das missões dos índios para as autoridades seculares, Salvador Correia de Sá fez uma declaração para o Conselho Ultramarino onde dizia: «eu sou testemunha ocular do facto de que em S. Paulo e Rio de Janeiro, onde fui governador durante muitos anos, os conselhos municipais desejavam obter jurisdição secular nas aldeias da missão, colocando-as sob controle de capitães nomeados por eles próprios. A dada altura, quando os padres deixaram esses lugares, havia 1000 famílias na aldeia de Marueri, 700 nas de S. Miguel, 300 tupis na de Pinheiros e mais de 800 na de Guarulhos. Quando regressei a S. Paulo, alguns anos mais tarde, encontrei apenas 120 famílias em Marueri, 80 em S. Miguel, 20 em Pinheiros e 70 em Guarulhos.» (Boxer, pp. 127)
Boxer escreve que, em qualquer caso, o sistema jesuíta desencorajava fortemente a iniciativa individual e o desenvolvimento da personalidade dos seus índios.
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(continua).     

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

Relatórios holandeses, contemporâneos e fidedignos, informam que chegaram à Baía, em segurança, dezasseis navios e 1200 soldados, vindos do Rio de Janeiro, com grandes quantidades de carne e farinha, para abastecer a força expedicionária da Torre. Estes fornecimentos adicionais de mercadorias vieram de Buenos Aires, cujo governador, D. Mendo de la Cueva y Benevides, era um parente de Salvador. (Boxer, pp.120) D. Fernando de Mascarenhas endereçou-lhe muitos elogios e agradecimentos por todo o apoio obtido.
O conde da Torre conseguiu, assim, reunir cerca de 90 navios bem guarnecidos.Mas, durante o tempo que mediou essa preparação para a guerra, Nassau também se reforçou e quando se deu o encontro das duas esquadras inimigas, o Conde da Torre, apesar de inicialmente estar a vencer, após quatro dias de combate foi obrigado a dispersar a esquadra e foi destroçado em Potengy. A derrota foi clamorosa. A custo o governador-geral conseguiu chegar à Baía. D. Fernando de Mascarenhas foi mandado regressar a Lisboa e encarcerado na torre de S: Julião da Barra, donde só seria liberto, após a Restauração de Portugal em 1640.
Um total de 1500 a 2000 homens aportaram em Touros, no Rio Grande do Norte, e sob o comando de Luís Barbalho Bezerra, percorreram 400 léguas a pé até à Baía, constantemente atacados por inimigos. Morreram 100 homens durante esta marcha épica. Outros navios fugiram para as Antilhas. Os espanhóis sofreram em poucos meses esta derrota e a destruição da armada do Almirante Tromp, em Downs, a sul da Inglaterra, que coincidiu também com a revolta da Catalunha.
O Brasil seria então governado por um Vice-Rei, o Capitão General de Mar e Terra D. Jorge de Mascarenhas, Marquês de Montalvão. A administração do Brasil tinha passado pela centralização do governo-geral, divisão administrativa em dois governadores-gerais, por duas vezes, mas sempre com o "comando" da sua administração em Lisboa. As vilas e cidades eram geridas tal como eram as do reino. A justiça era exercida por juízes ordinários que estavam à frente das câmaras e, os governadores acumulavam os cargos de militares que procediam à defesa das capitanias desde a lei das ordenações de 1569 e da lei dos capitães-mores de 1570. (Magalhães, 1993)
A separação administrativa e política que resultou da criação do Estado do Maranhão em 1621, foi a mais longa experiência de governação pois, duraria até 1774.
Aquando da chegada do novo governo, andavam os colonos paulistas em discórdia com os padres, porque o Papa Urbano VIII, tinha enviado uma bula em que se garantia a liberdade dos índios, e os Jesuítas lutavam pela sua liberdade. Desde 1570 que se proibiam as "entradas" com o intuito de aprisionar índios e os escravizar; no entanto, apesar de, no início do século XVII, se dizer que no Brasil se há criado outra Guiné, nem por isso se substituíam os índios. Padre António Vieira, a propósito do Maranhão, escrevia que, "Tendo o Estado tantas léguas de costa e de ilhas e de rios abertos, não se há-de defender, nem pode, com fortalezas, nem com exércitos, senão com assaltos, com canoas, e principalmente, com índios e muitos índios; e esta guerra só a sabem fazer os moradores que conquistaram isto e não os que vêm de Portugal."
Sabemos que estas palavras de Vieira se aplicavam a todo o Brasil e que Salvador de Sá e Benevides teve sempre, quase como braço direito, os índios. E, apesar de no Rio o problema do trabalho escravo dos índios não ter a gravidade do de S.Paulo, Salvador de Sá, que era muito amigo dos padres, resolveu intervir para conseguir um acordo ente os jesuítas, o povo e a Câmara. Escreveu-se uma acta a confirmá-lo, que se assinou, no Colégio, em 22 de Junho de 1640. Os padres deixavam de poder intervir na administração dos índios que os moradores tivessem em sua casa. Passavam a só poder proteger os índios nos seus aldeamentos. Os próprios padres tinham índios ao seu serviço, no seu muito vasto património, o que gerava, entre o povo, a controvérsia, no entanto, Martim de Sá, em 1630, atestava que lhes pagavam soldo. Quando se revoltaram e teceram amargas críticas aos Jesuítas, os populares afirmavam que só no colégio do Rio havia 600 escravos, mas os padres desculpavam-se argumentando que os escravos "eram quase todos negros". (Boxer, pp.139) O próprio Salvador tinha cerca de 700 escravos, empregados nas suas várias plantações de açúcar e ranchos de gado, e era, quase certamente, o maior proprietário de terras, na capitania e, possivelmente, na verdade, o maior proprietário de terras individual, em todo o Brasil. (Boxer, pp. 140)
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(continua)   

sexta-feira, 1 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

Pouco depois de chegar ao Rio, recebia ordens para, juntamente com um feitor que lhe enviaram, recolher o maior número de abastecimentos para enviar às capitanias do Norte. As capitanias do Rio, S. Vicente e S. Paulo é que forneciam a Baía naquele tempo, «por serem fertilíssimas de farinhas, assim de trigo, como de mandioca e de toda a criação» de animais domésticos.
Salvador de Sá e Benevides podia, para esse efeito, usar o dinheiro da Fazenda Real, ou o seu crédito de Capitão-Mor e Governador. Do Reino recebia o sal para temperarem as carnes que adquiriam. Os exércitos e praças do Norte eram abastecidos pelos grandes armazéns, que ficavam sediados no Rio de Janeiro, «pois era certo que sem mantimentos todo o socorro de gente e armadas que se mandar ao Brasil não somente será de proveito ao intento que se pretende, mas será causa de ruína, e total destruição de tudo.» (Norton, pp.36)
No dia 6 de Março de 1639 nasceu o primeiro filho de Salvador que era, então, um grande proprietário. Tinha construído um armazém para recolher o açúcar, a farinha e outros géneros da terra. Aí instalou uma balança que obtivera o privilégio de ser a única na cidade, porque não podia haver outra, e cobrava pela pesagem de cada caixa de açúcar dois vinténs. (Lessa, pp.21/22) Esta armazém que, inicialmente, tinha um contrato de exploração por dezanove anos, assinado pelo Conselho Municipal, viria a tornar-se vitalício, inclusive para os seus herdeiros, que obtiveram um investimento muito lucrativo porque, ao longo de dois séculos, apesar de todos os esforços das autoridades para o comprar, não foi possível negociá-lo. Até 1850, o governo imperial não conseguiu, nem mesmo por uma quantia elevada, comprá-lo à sua família. (Boxer, pp. 115)
Apesar de toda a sua riqueza, solicitou um aumento do seu salário, o que lhe veio a ser concedido, como Mestre-de-Campo, a 15 de Novembro de 1639, quando foi, também a seu pedido, nomeado administrador das minas de S. Paulo. Ser-lhe-iam atribuídos os largos poderes de governador das capitanias do Sul, devido aos seus argumentos da "maior facilidade de manobra em tempo de guerra com os Holandeses."
O Conde da Torre, D. Fernando de Mascarenhas, chegou à Baía a 19 de Janeiro de 1639 para substituir Rojas, depois de ter saído do Tejo a 7 de Setembro de 1638. Tinha permanecido em Cabo Verde muito tempo e perdeu muitos dos seus homens. Durante a abordagem que fez no Recife, a 10 de Janeiro de 1639, os seus oficiais aconselharam-no a atacar os holandeses imediatamente, mas ele recusou. Comandava uma esquadra de socorro, composta por 25 navios portugueses e oito espanhóis, que Madrid resolvera enviar para travar o ímpeto conquistador de Nassau. Esse estendia-se à Baía, onde já tinha tomado duas fortalezas e continuado para Salvador, onde foi derrotado pelo conde de Bagnuolo.
O governador-geral pediu que se reunissem aos seus navios todos os que estivessem disponíveis nas diversas capitanias, assim como o recrutamento de homens e provisões, para a guerra. Salvador Correia de Sá providenciou para que fossem pagos 4.000 reis, adiantadamente, a todos os voluntários que se alistassem. Como resultado do seu esforço, reuniu uma força mista de 428 soldados e 385 marinheiros, 30 cavaleiros e 37 canhoneiras. Numa carta que dirigiu ao Conde da Torre, Salvador dava-lhe conhecimento de que o pagamento aos homens recrutados, tinha sido feito do fundo da coroa e do seu próprio bolso. Também referia que tinha reforçado os cofres da tesouraria local com a imposição de uma taxa sobre a venda do vinho, coisa que nenhum dos anteriores governadores tinha conseguido. Uma segunda vez, Salvador prometia enviar 250 brancos e índios, do distrito do Rio e, dava ordens rigorosas para que ninguém de S. Paulo fosse "caçar" índios ou explorar minas no interior, enquanto durasse a guerra com os holandeses. Nesse despacho acrescentava que havia cerca de 900 homens em expedições no interior, e que teriam sido melhor empregues nas lutas em Pernambuco do que em "profanar os acampamentos da Missão onde iam procurar índios." (Boxer, pp.119)
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(continua)