sábado, 16 de junho de 2012

Recomeçar...

Quando vivemos uma crise profunda cujo fim não se vislumbra, a melhor solução é recomeçar todos os dias na esperança de que virão dias melhores. Mas a caixa de Pandora deixou bem guardada a Esperança e a caixa está, parece-me, bem fechada. Amanhã são as novas eleições na Grécia. Será que renascerá a esperança? Não vislumbro uma Europa sem a Grécia. Como será? Terão que recomeçar fora da União Europeia e com a sua antiga moeda? Será que foi um sonho, mais um, que se desmoronará? Tudo são interrogações! Exclamações, espanto, dor... 
Os dias são cálidos, mas trazem no ventre os ventos que anunciam um outono e um inverno sem paz. Queria acreditar que tudo vai melhorar, mas os milhões e milhões de desempregados por essa  Europa fora... como poderia acreditar? No nosso país os professores também são vítimas destas erradas políticas! Então se um empregado ao fim de três anos tem que ficar efectivo na empresa onde trabalha, como é possível que o Ministério da Educação possa ter professores contratados há 10, 15 ou mais anos? Isto é vida? Ou é uma morte lenta? Tudo são expectativas que vão ficando ano a ano frustradas! Outros beneficiarão do ónus que devia ter ido para os mestres e não foi. É uma desilusão.
Recomeçar de novo e procurar a alegria que nos falta, o alento, a procura de soluções para não nos deixar-mos adoecer nas depressões mais profundas com o que os nossos media nos noticiam todos os dias é a solução... será que se conseguirá? Esperemos que sim.
Para recomeçar vou dar-vos nota de um trabalho que realizei para o Seminário de Cultura Portuguesa I sobre o livro de Hernani Cidade: Lições de Cultura e Literatura Portuguesa. É uma resenha breve porque houve um limite  de páginas para o levar a cabo. Por isso, ficou-se por uma parte do livro e não a totalidade que implicaria um resumo até ao advento do Romantismo e ao «Ensaio sobre a crise mental do século XVIII». Esta é uma forma de comunicar e prestar aos estudantes que me lêem algum préstimo, passe a redundância.
Vamos recomeçar...   

Neste lamento dos dias

Neste lamento dos dias
Em que a tristeza me invade
Ouço os risos das crianças
E só me apetece chorar
Saudades dos tempos idos
Em que passava os dias a cantar
Tinha forças, tinha ânimo
Tinha amor, tinha alegria
Sonhava com um futuro risonho
Que a alma queria abraçar
Hoje somo desilusões
Deixei de acreditar.
Que futuro?
A vida é o dia que passa
E eu não o soube agarrar
Deixei-o passar... passar...

segunda-feira, 11 de junho de 2012

O Contributo da Família dos Sás...( Bibliografia)

BIBLIOGRAFIA

ALBUQUERQUE, Luís de, Introdução à História dos Descobrimentos, Lisboa, Publicações Europa América, 4ª ed., 1989.
ALMEIDA, A. Duarte de, História do Brasil, Lisboa, Liv. Ed. João Romano Torres, 1936, XIV Vol. da Col. PORTUGAL HISTÓRICO.
ALENCASTRO, Luís Filipe de, O Trato dos Viventes, Formação do Brasil no Atlântico Sul Século XVI e XVII, S. Paulo, 3ª reimpressão, Companhia das Letras, 2002.
BELCHIOR, Elísio de Oliveira, Conquistadores e Povoadores do Rio de Janeiro, Livraria Brasileira, Rio de Janeiro, 1965.
BETHENCOURT, Francisco; Chaudhuri, Kirti, História da Expansão Portuguesa, Lisboa, Círculo dos Leitores, 1998.
BICALHO, Maria Fernanda Baptista, A Cidade e o Império: O Rio de Janeiro na Dinâmica Colonial Portuguesa  século XVII e XVIII, S. Paulo, 1997.
BOXER, Charles R., Salvador de Sá, and the struggle for Brazil and Angola, 1602-1686, London, University of London, The Athlone Press, 1952.
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CALMON, Pedro, História Social do Brasil Colonial, S. Paulo, Comp. Ed. Nac., 1939.
COELHO, Jacinto do Prado, O Rio de Janeiro na Literatura Portuguesa, Lisboa, 1965.
CORTE-REAL, João Afonso, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, De Governador das Capitanias do Sul do Brasil a Restaurador de Angola, Braga, 1962.
CORTESÃO, Jaime, Os Descobrimentos Portugueses, Lisboa, INCM, 1990, III Vol.
CORTESÃO, Jaime, Pauliceae Lusitana Monumenta Histórica, Lisboa, II Vol. (1609-1658) Ed. Com. 4º cent.Fund. Cidade de S. Paulo, 1961.
DIAS,J.S. da Silva, Os Descobrimentos e a Problemática Cultural do Século XVI, Lisboa, 3ª ed., Edt. Presença, 1988.
DIAS, Gastão de Sousa, Restauração de Angola, Salvador Correia de Sá, Lisboa, 1938 In: Congresso da História da Expansão Portuguesa no Mundo.
DIAS, Gastão de Sousa, Reconquista de Luanda, Cadernos Coloniais, Lisboa, 1948.
DIAS, Gastão de Sousa, Cartas de Angola, Lisboa, Seara Nova, 1928.
FIGUEIREDO, José, História de Angola, Luanda, L. Lello, 1960.
GARCIA, José Manuel, O Descobrimento do Brasil, nos textos de 1500 a 1571, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2000.
LEITE, Serafim, Páginas de História do Brasil, S. Paulo, Comp. Ed. Nac., s/d.
LEITE, Serafim, Novas Cartas Jesuíticas ( de Nóbrega a Vieira ), S. Paulo, C.E.N.,  s/d.
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MARQUES, A. H. Oliveira , História de Portugal, Lisboa, Palas Editores, 1985.
MARTINS, Oliveira, O Brasil e as Colónias Portuguesas, Lisboa, 1978.
MARTINS, Francisco José da Rocha, Vida de Salvador Correia de Sá Benevides, capitão mor do Rio de Janeiro e libertador de Angola, Lisboa, A.C.L., Separata das «Memórias», 1948.
MATOSO, José, HISTÓRIA DE PORTUGAL, Lisboa, C. Leitores, 1994.
NORTON, Luís, A Dinastia dos Sás no Brasil, (1558-1662), Lisboa, Ag. G. Col., 1943
OCEANOS, Revista nº 40, Lisboa, C.N.C.D.P., 1999.
SAMPAIO, Albino Forjaz de, Salvador Correia de Sá e Benevides, O Restaurador de Angola, Lisboa, Ag. G. Col., 1936
SANTOS, Maria Helena Carvalho dos, Do Tratado de Tordesilhas 1492 ao Tratado de Madrid 1750, Lisboa, S.P.E. Séc. XVIII, 1997.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, O Rio De Janeiro no século XVI, Lisboa, E.C.N.C.D., 1965.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal, Lisvoa, Ed. Verbo, 3ªed. 2001.
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, O Tempo dos Filipes em Portugal e no Brasil (1580-1668), Ed. Colibri, 1994.
SERRÃO, Joel, Dicionário da História de Portugal, Porto, l. Figueirinhas, 1992.
SILVA, Maria Beatriz Niza da, Cultura Portuguesa na Terra de Santa Cruz, Lisboa, Ed. Estampa, 1995.
TEIXEIRA, Fernando, Heitor Gomes, A Visão da Cidade no Século XVII  - Luanda vista por Cadornega, Lisboa, FCSH-UNL, 1982.
VILELA, Magno, Uma questão de igualdade ... António Vieira - A escravidão negra na Bahia do séc. XVII, S. Paulo, Relume Dumará, s/d.
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V - Salvador Correia de Sá e Benevides (Conclusão)

«...na vida, ninguém alcança a glória merecida.»
LUÍS DE CAMÕES


CONCLUSÃO

As palavras gravadas na lápide da campa de Salvador, mostram bem a dor dos seus últimos anos de vida. Não havia uma única referência ao Brasil. Era como se, de facto, nunca lá tivesse estado. Muitos dos dissabores que sofreu terão sido motivados por intrigas e calúnias, segundo afirmou quando do regresso a Portugal.
Ao concluir-mos este trabalho, não temos a mesma visão edílica que trazia-mos da infância do herói da Restauração de Angola. Reconhecemos que como dizia John Betjman, a infância é medida em sons, cheiros e imagens, antes da chegada da hora escura da Razão. Os sons que se ouviam eram os de glórias ao herói, os cheiros os dos jardins, que os zéfiros brandos da matina solarenga ou de cacimba, transportavam e misturavam com os odores do mar, ao longo da rectangular avenida que levava ao Liceu Salvador Correia. As imagens eram as do quadro a óleo de um Salvador jovem, fidalgo honrado, que transpareciam igualmente do busto que admirávamos.
A chegada da hora escura da Razão não deixa margem para tintas coloridas. A ida para Angola deveu-se a interesses económicos, políticos e religiosos. O seu dever patriótico, o seu espírito de aventura, a sua coragem destemida, a sua Fortuna ou Fado levou-o a cumprir o que lhe estava traçado ou aquilo que para si traçou. O Brasil precisava de mão-de-obra africana para se construir como uma nação. Os engenhos de açúcar, as grandes propriedades de gado, as minas, as construções de caminhos, estradas e pontes, de baluartes e fortalezas, de igrejas e de conventos, de palácios, etc. não se teriam feito sem os homens que se compraram ao Continente Africano.
A realidade da escravatura é, em todos os tempos da História do Homem, uma nódoa imperecível na história de todos os povos. Todos a praticaram e as culpas estão em todos até à eternidade dos tempos. Na Idade Moderna constituía prática comum. A teoria de Aristóteles ajudou a que se aceitasse a inferioridade de outros seres que eram em tudo iguais a cada um. As missões tinham escravos e os missionários não estão ilibados do próprio tráfico e lucro que daí advinha.
Perante o quadro doloroso que foi a colonização, fica-nos a ideia que era de facto um inferno, de abuso de poder de exploração do homem pelo homem. No entanto, à luz do tempo que viveu, continuamos a afirmar Salvador Correia de Sá e Benevides como um Herói Nacional que não merece o esquecimento. Enriqueceu e fez enriquecer Portugal, mantendo-lhe a posse do Brasil, de Angola e de S. Tomé. Foi digno herdeiro do nome que recebeu. A História de Portugal da Idade Moderna não se faz sem o contributo da sua própria história e a dos seus ascendentes e descendentes, resta-nos honrá-lo em nome do orgulho e respeito que sentimos pela nossa História.
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Lisboa, 25 de Setembro de 2004
     

sábado, 9 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

Tudo o que o Brasil deu a Angola, Salvador Correia de Sá lhe restituiu com largueza (Norton, pp.125). A sua riqueza e poder era agora mais do que nunca. A partir de 17 de Setembro de 1658, voltava ao Brasil com o título de Governador das capitanias do Sul, nomeado pela Regente D. Luísa de Gusmão, e inaugurava a grande campanha para a exploração do ouro e das pedras preciosas. A ideia da serra das esmeraldas e da serra resplandecente de Sabarassú mantinha-se, por isso, nova bandeira comandada por seu filho João Correia de Sá, partia em busca desse sonho. Todas as despesas das pesquisas foram pagas por Salvador, mas a viagem, tormentosa nas aventuras e desvarios, revelou-se infrutífera. Mais sorte teve Salvador em S. Paulo, onde se revelaram novos "filões auríferos." Inaugurava-se o ciclo do ouro. A expulsão dos holandeses do nordeste em 1654, o regresso dos Jesuítas a S. Paulo em 1653, permitiram pensar numa possível concentração de esforços para o trabalho nas minas.
Porém, nesse tempo, os moradores do Rio de Janeiro estavam empobrecidos pelas consecutivas partidas dos seus homens para a aventura do sertão e das conquistas guerreiras. Durante a ausência de Salvador criaram-se partidos que traziam uma política de dissidência e revolta. As velhas acusações contra a família dos Sás ressurgiram motivadas pela sua tão desmesurada riqueza e poder oligárquico. Os motins revolucionários sucediam-se e Jerónimo Barbalho Bezerra encabeçava as revoltas. Salvador teve que reunir os seus índios e criados para assaltar a fortaleza que tinha sido tomada, e retomar o governo usurpado pelos revolucionários. Jerónimo Bezerra foi condenado à morte em 1661 e com a ajuda da Armada de Manuel Freire de Andrade, que se encontrava de chegada ao Rio, Salvador conseguiu retomar o poder e serenar os ânimos.
Houve autores que viram nesta revolta o fermento daquilo que viria a ser, mais tarde, a necessidade da independência do Brasil. O jugo dos poderosos começava a atormentar o povo do Rio. As «fazendas de potência» de Salvador e de Tomé Alvarenga foram sequestradas. Nada voltaria a ser como até aí, porque o Conselho Ultramarino mandou um novo governador para substituir Salvador e ser-lhe-ia, novamente, ordenada uma devassa. Apesar de lhe ser consentido retirar das suas terras sequestradas o necessário para continuar a trabalhar na sua grande obra, o "Padre Eterno", o maior navio construído no Brasil daquele tempo; e, um dos maiores galeões construídos no século XVII, saído da fábrica dos galeões do Rio de Janeiro, não chegou a vê-lo concluído. Mais tarde viria a ser vendido à Coroa. Logo após a tomada do cargo do novo governador, D. Pedro de Melo, a 29 de Abril de 1662, a família de Sá e Benevides preparava a sua partida.
Salvador regressou à metrópole em 24 de Junho de 1663, "ao cabo de 49 anos contínuos de serviços" para nunca mais voltar ao Brasil, onde tinha vivido a maior parte da sua vida. (Norton, pp.144/146)
D. Afonso VI fê-lo morgado do Paul da Asseca, no ano de 1664 e dois anos depois concedeu ao seu filho Martim, o título de Visconde de Asseca. As acusações perseguiram-no e se não fossem os padres, depois de supostamente ter intervido no golpe de Estado contra D. Pedro II, teria sido condenado a cumprir pena de degredo em África. Espoliado dos seus bens, foi-lhe concedido viver e morrer no seu palácio de Santos-o-Velho em Lisboa. Voltou a trabalhar no Conselho Ultramarino desde 1671 até 3 de Dezembro de 1680, dia em que assinou a sua última consulta.
Faleceu a 1 de Dezembro de 1688 e foi sepultado no antigo Convento de Nossa Senhora dos Remédios dos Carmelitas Descalços. Na lápide da sua sepultura, que veio a desaparecer, estavam escritas as seguintes palavras:

«AQUI JAZ SALVADOR CORREIA DE SÁ E BENEVIDES,
SENHOR DO COUTO DE PENA BOA E DAS VILAS
DE TANQUINHOS, ARRIPIADA E ASSECA,
RESTAURADOR DA FEE DE XPTO NOS REINOS
DE ANGOLA, CONGO, BENGUELA, S. TOMÉ
VENCENDO OS OLANDESES, E COMPROU
ESTA SAN CHRISTIA COM MISSAS E SUFRAGIOS PERPETUOS
PEDE A QUEM LER ESTE LETREIRO O ENCOMENDE A DEOS»
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(continua)
  

sexta-feira, 8 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

Salvador mandou tratar dos feridos, embarcou os holandeses em três navios, e, quando escreveu os primeiros despachos para Lisboa, pediu recompensas ao rei para os seus soldados. Entre elas, os indultos para os condenados e encarcerados que tinham ido na expedição e que tinham cumprido o dever com o risco da sua própria vida. Alguns dos sobas foram punidos pelo novo governador e vencidos nas margens do Bengo; outros tornaram a ser fieis aos portugueses. N'zinga recolheu-se para o interior e durante alguns anos não se soube do seu paradeiro. As dificuldades existentes com o Rei do Congo, Garcia Afonso II, também foram resolvidas com um acordo de mútua assistência, e a autorização de construir um forte na foz do rio Zaire.
Depois, uma das primeiras medidas de Salvador foi retomar o comércio de exportação de escravos, não limitando as ambições do Brasil quanto a este assunto. Esperava retomar o comércio com Buenos Aires sob a condição, acordada com D. João IV, de que os espanhóis pagassem os escravos em moeda de prata ou em barra e não em mercadoria.
Reparou os danos sofridos em Luanda aquando da permanência dos holandeses e concedeu terras para cultivo, no sistema de sesmarias ou arrendamento. Apoiou uma proposta da Câmara de Luanda para introduzir uma moeda de cobre de valores até 25 reis, mas foi repreendido e viu recusada esta proposta, pelo rei e pelo seu conselho. Se houvesse cobre devia ser enviado para Lisboa e não gasto com os incipientes colonos e os "selvagens", porque isso dar-lhes-ia um poder que se poderia tornar perigoso. O velho sonho de Salvador de cunhar moeda caía mais uma vez por terra. Apresentou todas as despesas que ele próprio e o Rio de Janeiro tinham feito com a expedição da libertação de Angola, e a Câmara pagou implementando um imposto de três mil reis por cada escravo adulto exportado. Enviou para a Baía o último galeão do Conde de Vila Pouca de Aguiar, em 1649 e construiu galés e barcos para defesa da costa angolana.
Apesar de ter tido uma saúde resistente ao clima africano, depois de ter estado três anos afastado da família e porque continuava doente da sua perna, pediu, em Outubro de 1650, para ser substituído no seu cargo em Março do ano seguinte. No entanto, embora a sua esposa, que tinha ficado em Lisboa, se tivesse esforçado em pedidos junto do rei, para que Salvador regressasse, este só partiu de Luanda para o Brasil em Março de 1652, levando consigo um grande número de escravos negros.
Lessa escreveu que o maior feito desta fase e, possivelmente, de toda a vida de Salvador, foi a restauração de Angola do jugo dos holandeses, jornada de armas que lhe aureolou o nome com o brilho da imortalidade. (pp.40)
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(continua)  

quinta-feira, 7 de junho de 2012

V - Salvador Correia de Sá e Benevides

O ponto de encontro de toda a frota era em Quicombo, se algum dos navios se atrasassem ou desviassem, por  qualquer motivo, uma vez que todos tinham de navegar em linha. Segundo Boxer, o navio Almirante de Salvador ia na vanguarda e o navio Almirante, S. Luís, na retaguarda. Este galeão perdeu-se várias vezes, e só reencontrou a armada a 9 de Julho, enquanto um dos escaleres se juntou à frota ao largo de Luanda. Salvador avistou a Costa Africana em 12 de Julho, um pouco abaixo de Cabo Frio. A travessia durou dois meses e a frota ancorou na enseada de Quicombo a 27 de Julho, para recolher lenha e água. Segundo Lessa, chegaram a 26 de Julho e desembarcaram em Cabo Ledo onde levantaram dois redutos. Aqui, perderam dois navios Almirantes com umas centenas de homens, numa tempestade originada por um verdadeiro sismo submarino. Um grupo de homens que tinham desembarcado também foram apanhados por este desastre e muitos deles foram comidos por canibais.
Salvador mostrou ser um digno herói da tragédia e levantando-se das cinzas, continuou a navegar com o resto da frota para Luanda. Fez uma paragem na foz do rio Suto e desembarcou de novo um grupo de homens, que não foi mais feliz que o primeiro. Os holandeses eram agora informados das intenções de Salvador, pela captura de alguns destes emissários de Massangano. A esquadra de Salvador chegou defronte de Luanda a 12 de Agosto. Havia dois navios holandeses no porto: Noort-Holland e Ouden Eendracht, que logo se fizeram ao mar a fim de reconhecer os recém chegados. Ao descobrirem a nacionalidade dos navios da frota desapareceram rapidamente no horizonte. Salvador Correia de Sá tinha a glória à sua espera, uma vez que, pela captura de dois pescadores angolanos, soube que 225 militares holandeses, comandados por Symon Pieterszoon, estavam para o interior a ajudar a Rainha N'zinga contra os portugueses. Outros 250 tinham recolhido ao forte do Morro e para o adjacente (o da Guia) na sua base, quando viram chegar a esquadra.
Salvador entrou na baía de Luanda a 13 de Agosto e mandou três emissários a terra a pedir a rendição pacífica. Os holandeses pediram oito dias, mas os portugueses deram-lhes dois ou três dias. No dia 15 de Agosto, Salvador desembarcou os seus homens e deixou nos galeões bonecos com bandeiras, a simular uma tripulação que não tinha. Ordenou aos seus soldados e marinheiros que marchassem sobre a cidade. Ele deslocava-se a cavalo, porque estava doente de uma perna. A vanguarda foi mandada atacar a cidade e os holandeses acabaram por ter apenas uma reacção simbólica e retiraram-se para o abrigo dos fortes do Morro e da Guia, dando-se o sucessivo assalto ao do Morro e da Guia, em três ondas sucessivas de portugueses, durante a noite e a aurora. Houve mais de 150 baixas nas tropas e Salvador mandou reunir.
Alguns canhões tinham rebentado e outros estavam sem concerto. Eis senão quando, após frustrado assalto ao Morro, surgem mensageiros holandeses com uma bandeira branca para negociar condições. Salvador disse que podiam redigir as suas condições. Estas foram assinadas a 21 de Agosto. Havia uma rendição holandesa. Eles comprometiam-se a evacuar os seus homens com honras de guerra e ser-lhes-ia permitido levar os seus bens, escravos e navios, para os fazer transportar. Cerca de uma centena de soldados católicos, mercenários franceses e alemães, ao serviço dos holandeses, pediram para ficar e ser respeitados, ao serviço dos portugueses.
Cardornega, que era um dos resistentes de Massangano, conta que os homens, com a alegria, comportavam-se "mais como loucos do que como seres racionais". O mesmo acontecia em Luanda, onde se tornava a consagrar a cidade a Nossa Senhora da Assunção, e se baptizava a fortaleza com o nome de S. Miguel, patrono da viagem de Salvador. (Boxer, pp.263/270)
O espírito de cruzada aliava-se a esta reconquista. Angola era novamente cristã, apesar da história de violência que marcava o destino deste povo, nas jamais desaparecidas marcas dos ferros com que se marcavam os corpos e estigmatizavam as almas.
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(continua)