segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Clepesydra de Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de P. Franchetti

I. 3. A Clepsidra de 1969.

Esta edição incluiu mais um soneto e quatro «poesias», e foi-lhe acrescentado "um conjunto de «outras poesias», que não teriam sido indicadas para compor o livro".
P. Franchetti analisa as fontes dos poemas e refere que alguns fragmentos com que J.C.O. "montou o Roteiro de Vida, foram colhidos do caderno de recortes e poemas que pertenceram a C.P. e que hoje se encontra no Arquivo Histórico de Macau."

II. Comentário das edições Osório.

Quais teriam sido as intenções de Pessanha? Publicar e organizar um livro ou uma colectânea? Esta é a questão que se coloca a P.F. após ter estabelecido "a origem provável ou certa de todos os textos que compuseram o corpo principal da edição de 1969." Desejaria "uma sequência de poemas cuja ordem" obedecesse "a um claro desígnio significativo," tal como "a primeira edição das Fleur du Mal constituía um «livro de poemas»? Não se conhece a vontade do autor. No entanto, P.F. diz ao leitor que J.C.O. é, a esse respeito, claro. A Clepsidra de 1969 é um «poema uno, com início e final de intensa e profunda explicação psicológica» (D, pp.119). Segue-se a transcrição da opinião de J.C.O., "em que reafirma a distinção entre a «Clepsidra» e os Outros Poemas." Seguidamente, P.F. propõe-se investigar a autoridade destas afirmações.

II. 1. A ordenação da Clepsydra  e os documentos que a fundamentariam.

Investigar é colocar hipóteses para as quais se pressupõe encontrar, ou não, resposta. Só verificando e confirmando as hipóteses é que se podem formular novas teorias. Por isso, P.F. vai colocando questões ao longo desta sua pesquisa. Aqui, põe para discussão a seguinte: "considerando a variada origem dos textos que foram sendo sucessivamente incorporados à Clepsydra  e as seguidas reordenações do conjunto dos poemas, que peso dar à reivindicação de Castro Osório, quando das edições de 1945 e 1969, de que a última ordenação do livro era definitiva e se conformava à concepção de Camilo Pessanha?"
Começa P.F. por ordenar os documentos que teriam, segundo J.C.O., constituído as linhas orientadoras do seu trabalho "de modo a manter o desígnio de Pessanha", e vai considerar cada um em separado.
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(Continua)

domingo, 11 de novembro de 2012

Clepsydra - Camilo Pessanha- Sinopse da E. C. de P. Franchetti

I. 2. A origem dos textos acrescentados na Clepsidra de 1945 e 1956.

Onze dos poemas, que são incluídos em B e não vinham em A, têm origem, segundo P. Franchetti, em várias fontes. Dois dos autógrafos, que J.C.O. teve em mão, não foram localizados, actualmente, por P.F., e outros 9 terão vindo de revistas ou de cópias de manuscritos, etc. a que não teve acesso. Identifica algumas das revistas em que foram publicados três dos poemas: Seara Nova, Revista de Portugal (ambos em 1940) e no periódico: O Portugal (1900), e admite outras probabilidades.
Em nota refere que J.C.O. regista em D que, quando da preparação da edição B, teria tido acesso a autógrafos que pertenciam a Carlos Amaro e que lhe teriam sido conseguidos por Luís de Montalvor.
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(Continua) 

sábado, 10 de novembro de 2012

Clepsydra - Camilo Pessanha - Sinopse de P. Franchetti

(Continuação)

I. 1. A origem dos textos que compuseram a Clepsydra de 1920.

Nesta primeira edição, por aquilo que se sabe de concreto, só possuía A.C.O. 18 poemas em manuscrito autógrafo de Camilo Pessanha. Surge a dúvida de P.F.:de onde vieram os outros? Três outros poemas terão sido retirados de um jornal de província e os outros, segundo J.C.O., terão sido ditados de memória, pelo poeta, aquando da sua estada em Lisboa, em 1916. Logo, esta edição A foi realizada, praticamente toda, com autógrafos, à excepção dos três poemas.
Em nota, P.F. dá conta dos manuscritos que estão no espólio de C. P. na Biblioteca Nacional, e de todos os poemas que nele se inscrevem. Surge apenas um poema com caligrafia diferente e emendado, cresse, por Pessanha. Todos os comentários de J.C.O. são colocados em causa, porque o mesmo se contradiz a propósito do documento que, em A, teria fixado um dos sonetos. "Sucede o mesmo a propósito de outro soneto," que teria sido copiado de um autógrafo pertencente à família.
Conclui-se que há três diferentes origens para a fixação do texto A: "autógrafo, cópia de autógrafo e ditado." Mas o que parece mais claro é que alguns poemas foram colhidos de várias fontes. P.F. relaciona, em seguida, os poemas e as suas origens prováveis.
Em nota, refere-se à vontade de J.C.O. em ver-se reconhecido como editor literário de Pessanha e P.F. chama a atenção para os textos da edição de 1969. De facto, Osório parece que se indispunha com todos os estudiosos que se aproximavam da obra de Pessanha.
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(Continua)

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

Clepsydra - Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de Paulo Franchetti

(Continuação)

P. Franchetti conclui que, em rigor, o que havia, até ao momento em que inicia o seu trabalho, era a edição organizada por A.C.O. em 1920. Todas as outras são modificadas e actualizadas por J.C.O..Sendo que, a de A. Quadros e a de Spaggiari quase nada acrescentaram, em crítica textual, às edições da Ática, apesar de Quadros ter registado várias leituras de autógrafos. A sua intenção, nesta edição crítica, há muito desejada pelos estudiosos de Pessanha, é registar rigorosamente as variantes e acabar com "as eventuais intervenções textuais de João de Castro Osório." Intervenções que terão sido abusivas e que já tinham sido postas em causa, em 1956, por um estudioso da vida e obra de C. P., António Dias Miguel. Em nota, P.F. remete o leitor para críticas publicadas na revista Colóquio (nº60) de autoria de Pedro da Silveira, e a de José Bento, em O Tempo e o Modo (nº71/72) e, ainda, para o número especial da Persona, dedicado a C. Pessanha, onde se encontra um texto de Alfredo Margarido (suplemento nº 11/12).
Para melhor se percepcionar as diferentes edições e se ter uma visão diacrónica do conjunto, resolve, o editor crítico, apresentar um quadro que, em colunas paralelas, apresenta as quatro edições organizadas pelos Osórios. Em nota, explicita que agrupa a 2ª e 3ª edições, uma vez que, nestas, não houve alteração na lição dos textos nem na ordenação dos poemas.
Assim, temos o quadro das edições de 1920, que P.F. identifica como a variante (A), agrupa-se a de 1945 com a de 1956, que tomam as letras (B e C), e a de 1969 que tem a letra (D). Estas letras, das diversas edições, servirão para, ao longo da fixação do texto, se reconhecer qual foi a opção tomada, ou lição final escolhida.
Segue-se uma legenda que dá as seguintes informações: "(+) Poema incluído por JCO; (-) Poema suprimido por JCO; (T) Título atribuído por ACO/JCO; (-T) Título suprimido por ACO/JCO."
Ao olhar-se para estes quadros, verifica-se que a edição A "trazia um total de 30 peças". A edição B acrescentou 11 poemas. Em D surgem mais um soneto e cinco «poesias». Outros poemas são acrescentados, o livro divide-se em três partes, passa a chamar-se Clepsidra e outros poemas e é composto por «56 peças»".
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(Continua)

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Clepsydra - Camilo Pessanha - Sinopse da E. C. de Paulo Franchetti

I. Histórico das edições da Clepsydra

O leitor toma conhecimento de que os poemas de C. P. foram sendo publicados, ao longo da sua vida, em vários jornais de Portugal e de Macau e que só em 1920 é que se editou pela primeira vez um livro com os seus versos, por iniciativa da escritora Ana de Castro Osório. Numa longa nota de rodapé, P.F. chama a atenção para o aspecto de o filho da escritora, após o seu falecimento, ter chamado a si o mérito de convencer C.P. a publicar os seus poemas. Paulo Franchetti conclui que não é plausível, uma vez que, numa entrevista ao Diário de Lisboa, em 1921, A.C.O. confirma ter sido ela que preparou a edição da Clepsydra. E, argumenta P.F., que Camilo Pessanha esteve a última vez em Lisboa em 1916, tendo nessa altura, João de Castro Osório apenas dezasseis anos, tornando-se, por isso, ainda mais improvável.
Esta edição, publicada pelas Edições Lusitânia, em Lisboa, foi a única, em vida de Camilo Pessanha, que faleceu em 1926. Haviam-se publicado também, um conjunto de 16 poemas, no número único da revista Centauro, em 1916. Em nota, P.F. dá o nome de todos os poemas publicados nessa revista trimestral de literatura.
Quando Ana de Castro Osório faleceu, o seu filho continuou a investigar a obra e a vida de C.P. e irá fazer novas actualizações da edição de 1920. A segunda edição saiu em 1945, com o nome de Clepsidra, e incluindo mais poemas. A terceira é uma reedição e veio a público em 1956. A quarta edição data de 1969, sempre pela Ática, e é considerada por J.C.O., como definitiva. Em relação às anteriores, traz novos poemas e textos de C.P., em prosa e verso e "algumas anotações de variantes e uma grande colecção de textos e comentários" de João de Castro Osório.
Em nota, P.F. informa que os textos acrescentados de C. P., são traduções de oito poemas chineses, precedidos de um prefácio do tradutor, e um outro artigo comentando a poesia de Alberto Osório de Castro, que foram publicados, respectivamente, em O Progresso, em 1914, e no semanário A Verdade, de 31/03/1910, ambos em Macau.
Segue-se a informação de que a Ática, após a morte de J.C.O., reeditou a obra, sempre com base no "arranjo e lição" da edição de 1969, eliminando apenas uma parte dos textos do organizador.
Todas as edições de outras editoras tiveram origem nas da Ática. P.F. comenta as incorrecções de alguns poemas e erros dos editores, como a da Publicações Anagrama, do Porto. Dá o exemplo de outras bem organizadas, mas também baseadas nas de J.C.O., seguindo as suas lições e leituras. São elas a da Publicações Europa-América, organizada por António Quadros, em 1988, e a da Adriática, publicada em Bari, por Bárbara Spaggiari, em 1983. Seguem-se comentários críticos, fundamentados, à organização destas edições, e há uma chamada de atenção para o facto de, na publicação de Bari, a investigadora, supostamente, não ter tido acesso aos autógrafos de C. P. na Biblioteca Nacional de Lisboa, e ao Arquivo Histórico de Macau. Em nota explicitam-se as opções de A. Quadros referentes a vários versos e dão-se exemplos de erros de transcrição, assim como se refere o aspecto de a pontuação de Pessanha ser claríssima, e de J.C.O. ter produzido absurdos que depois foram continuados nestas edições.
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(Continua)

































terça-feira, 6 de novembro de 2012

Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de Paulo Franchetti

Maintenant, voyons la coulisse, l'atelier,
le laboratoire, le mécanisme intérieur...
Baudelaire

Numa nota da Relógio D'Água Editores, o leitor é informado de que "esta edição crítica retoma, com substanciais acréscimos, a que foi publicada pela Universidade Estadual de Campinas em 1994". A edição de Lisboa é de 1995  e recebeu o apoio da Fundação Fernando Pessoa. Tem capa de Fernando Mateus sobre foto do autor, Camilo Pessanha. O estabelecimento de texto, introdução crítica, notas e comentários são de Paulo Franchetti. (Nome que irei abreviar, ao longo deste texto, pelas suas iniciais, assim como o do poeta Camilo Pessanha, de Ana de Castro Osório e de seu filho, João de Castro Osório).
O livro tem início com os agradecimentos de P.F. a dezasseis pessoas e a sete instituições, todas com o nome expresso, que deram apoio à sua pesquisa.
Seguidamente surge a Introdução. Antes de apresentar a parte expositiva da introdução P.F. começa por explicar o esquema e a organização do livro para se tornar mais acessível ao leitor. Consta de três partes:
A primeira, é a introdução, onde o editor começa por contar a história das edições da poesia de Camilo Pessanha e descreve todos os testemunhos de que serviu para estabelecer o texto dos poemas e expõe os critérios que o levaram a escolher cada lição.
A segunda é a que contém as poesias de Camilo Pessanha. Em rodapé de página e, para cada poema, P.F. colocará as variantes das edições que serviram de cânone, organizadas por Ana de Castro Osório e, a seguir, por seu filho, João de Castro Osório.
Da terceira constam as anotações e comentários informativos, assim como a listagem das variantes a que P.F. teve acesso, em autógrafos ou em outras publicações anteriores.
Por fim, o editor crítico fornece uma bibliografia que não considera exaustiva e, em apêndice, dá uma lista de autógrafos conhecidos e a relação dos poemas que se publicaram em vida do poeta.
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(Continua)

Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de Paulo Franchetti

(Fim da Introdução)

A segunda crítica textual é a crítica genética que trabalha com o original presente, manuscritos ou textos dactilografados ou a computador, impressos revistos pelo autor, em que se sabe qual a sua última fixação do texto. Então, neste caso, não será necessário estabelecer uma genealogia entre os textos e partir-se-á para uma edição de reprodução fiel da escrita. Porém, esta edição não poderá ser interpretativa e, por vezes, o editor também se depara, não com um único original, mas com várias etapas da génese do texto. Terá que escolher a fixação do texto, partindo, talvez, do pressuposto de que o último texto escrito e revisto pelo escritor é o fidedigno. E as reescritas que o autor deixou desse mesmo texto, devem ou não ser publicadas? Não trarão elas informações preciosas sobre a evolução criativa do autor? Este não será, rigorosamente, um interesse da filologia, mas irá conduzir ao desabrochar desta crítica genética.
A esta crítica - genética - digamos que lhe interessa todo o processo laboral do escritor, todas as folhas por ele escritas, desenhadas, riscadas, emendadas, mesmo que elas tenham dado origem a um único texto final, representam os rascunhos que podem ser datados cronologicamente e que, sistematizados num aparato genético, podem dar informações complementares sobre o texto e o autor. Como que propõe uma "ciência da escrita" e é, por isso, parcelar. Privilegia não o escrito, mas a escrita. A crítica genética não fala de literatura, fala da escrita. Os genéticos, ao estudar a rasura, estão a estudar a génese, o ante - texto. Esta ciência obtém um primeiro resultado com Flaubert, que escrevia e reescrevia. A literatura começava com a rasura.
Poderemos dizer que Edgar A. Poe, com o seu texto: Filosofia da Composição, ao vê-lo traduzido por Baudelaire com o título: A Génese do Poema, ou, em português, Três poemas e uma génese, terá dado início a este interesse genético da obra, ao texto como "tecitum". Tecido que se vai tecendo em sucessivos estádios até à plena e última intenção do autor. Era uma nova concepção da arte que Poe iria alimentar e que se tornaria muito importante para a modernidade, mesmo que tenha sido Baudelaire a definir essa mesma modernidade.
Apesar de Poe ter sido um escritor popular, que quis fazer algo para ser lido por um máximo de pessoas, não recusando o papel de "estrião literário", veio a influenciar não só Baudelaire, mas também Vallery, Mallarmé e Eliot. Para ele, a inspiração é atenção, energia e entusiasmo, era possível "aprender" a originalidade. O acaso e o incompreensível eram inimigos para Poe, que recusava a elegibilidade e a excluía, passando tudo pelo crivo da inteligência.
Assim como Pirandello tinha mostrado os bastidores do teatro, era necessário mostrar o mecanismo interior da construção do texto, os bastidores da escrita do poema.
Mesmo que Poe tenha construído uma ficção, o seu texto foi capital para tudo o que chamamos moderno.
Este é o trabalho da "crítica do original presente, à qual, atendendo a que o seu objecto de estudo é constituído por autógrafos preservados depois do século XIX, isto é, por manuscritos modernos, se pode também chamar crítica textual moderna." (2)
Antes de terminar esta breve introdução diremos que esta resenha, não será minuciosa mas, tentará seguir a organização do livro através da numeração e dos títulos dados pelo autor. Iremos observar o método de trabalho que Paulo Franchetti utilizou nesta "sua", Clepsydra, de Camilo Pessanha. Editor crítico que, cremos, é também "professor de leitura lenta".
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Notas:
(1)- NIETZSCHE, F., Aurora, Colecção Substância Res, pp.11.
(2)- CASTRO, Ivo de, Biblos, Enciclopédia Verbo das Literaturas de Língua Portuguesa, pp.602-610.
(3)- LANCIANI, Giulia e Tavani, Giuseppe, Dicionário da Literatura Medieval Galega e Portuguesa,Editorial Caminho, Lisboa, pp.229-233.