segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da Edição Crítica de Paulo Franchetti


"Quem polluiu, quem rasgou os meus lençoes de linho,
                                             Onde esperei morrer, - meus tão castos lençoes?"
Camilo Pessanha


CONCLUSÃO

Jerome J. McGann diz, num texto que nos foi dado ler, que devido a circunstâncias históricas especiais sob as quais o criticismo textual se desenvolveu, o problema crucial com que se defronta o editor de textos modernos acabou por envolver uma determinação das intenções finais. Este problema teve se ser resolvido, pois a sua solução habilita o editor que trabalha sob regras predominantes a decidir sobre um texto - base para a sua edição crítica. De acordo com a linha de raciocínio Gaskell-Thorpe, a primeira edição será normalmente escolhida como texto-base, porque permanece perto do «texto como o autor queria que fosse lido» (pp.64). Mas a posição de Bowers é a de que o manuscrito do autor é uma autoridade mais alta - está mais perto das intenções finais do autor - visto que não contém qualquer da contaminações produzidas durante a passagem do trabalho pela imprensa.
Estas posições rivais partilham a opinião de que a regra das intenções finais orientará a escolha do texto-base.
O que acontece é que este autor, J. McGann, defende que tais decisões não precisam, de modo nenhum, de depender de qualquer conceito das intenções do autor. Refere como exemplo Greg, que ao fazer uma análise racional de Shakespeare não empregou tal conceito, ou pelo menos em parte, porque compreendia muito bem as circunstâncias sociais e históricas em que os textos foram produzidos. O conceito das intenções do autor não pode ser usado como medida definitiva para determinar decisões editoriais quando se não adequa à realidade ou circunstância em que a obra foi escrita. Reconhece, no entanto, que quando os editores lidam com trabalhos posteriores, (como é a edição de P.F.), as decisões acerca do texto-base têm, progressivamente, vindo a envolver determinações acerca das intenções do autor. E porquê? Porque, devido à evidência da muita documentação que se apresenta à crítica, o conceito é usado não como determinante, mas como um guia para escolher que versão do texto se vai trabalhar.
O que acabamos de constatar é que P. Franchetti, apesar de apreciar a primeira edição (A), como a mais próxima dos documentos autógrafos, não considera ser a lição a seguir nesta sua edição. Adopta, na ordenação dos poemas, as orientações exclusivamente atribuíveis a Pessanha. O que o coloca na esteira da posição de Bower, ao prezar os manuscritos do autor como a autoridade mais alta. No entanto, também perspectivou com muita acuidade todas as circunstâncias sociais e históricas em que a obra de C. Pessanha foi produzida e as consequências nefastas que isso implicou para a sua fixação de texto. Seguiu a recensão, fez o cotejo dos testemunhos, praticou a estemática e estabeleceu o texto a partir dos vários testemunhos, ordenando as fontes e dividindo-as em seis grupos por ordem de prioridade, seguindo princípios por si determinados, antecipadamente. Completou o seu trabalho com o registo das variantes, a anotação e todo o aparato crítico.
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(Continua)  

sábado, 17 de novembro de 2012

Clepsydra de C. Pessanha - Sinopse da E.C. de P.Franchetti

CLEPSYDRA

Na impossibilidade, por limite de páginas, de uma transcrição exaustiva de todos os poemas, escolhemos dar o exemplo do que inicia e do que acaba a antologia. Perfume agri-doce, de Camilo Pessanha.

                      "Eu vi a luz em um paiz perdido.
A minha alma é lânguida e inerme.
      Oh! Quem podesse deslisar sem ruido!
           No chão sumir-se, como faz um verme..."

* Intitula-se INSCRIPÇÃO  em A, B, C, D.

                              "Um fio a desdobar, que não termina.
De grinaldas de rosas de toucar."

* Em D, este fragmento identifica-se como: IMAGEM NOCTURNA DA CIDADE, VISTA DO ALTO.

NOTAS, COMENTÁRIOS E REGISTOS DE VARIANTES

O editor P. Franchetti enumera as convenções utilizadas e todas as variantes dos textos com que trabalhou, e os comentários mais diversos aos versos e poemas editados. É o mais exaustivo possível na sua análise. (Tem início na p.144 e termina na p.223) Segue-se a:

BIBLIOGRAFIA

Que se apresenta organizada da seguinte maneira:
I. DE CAMILO PESSANHA (P.228)
1.1. Poesia:
1.1.1. Edições da Clepsidra
1.1.2. Outros
1.2. Prosa
1.3.Epistolografia
II. SOBRE CAMILO PESSANHA (pp..229 a 245)

O livro apresenta ainda um:

APÊNDICE

Índice de Publicações

Índice de Autógrafos

Que faz a Relação dos poemas publicados em periódicos durante a vida de Camilo Pessanha (pp.249 a 251); e relaciona, por ordem alfabética, Os Manuscritos Autógrafos de Pessanha, conhecidos até à data desta edição, assim como indica a sua "localização e, se houver, reprodução acessível". Dá, por fim, as Siglas utilizadas. (pp.255)

Segue-se o ÍNDICE ALFABÉTICO DE TÍTULOS E DE PRIMEIROS VERSOS, e termina com o ÍNDICE GERAL.




Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da Edição Crítica de Paulo Franchetti

Considerações Finais.

Paulo Franchetti manifesta o gosto que teria em dizer que, este trabalho, reúne todos os poemas de Camilo Pessanha, mas passados que são 70 anos da morte do poeta, "é bem provável, que tal conjunto jamais seja compilado." Enumera seguidamente os textos que se perderam e nota que foram muitos. Deixa uma interrogação: "Quem sabe o que ainda nos reservam os arquivos de Macau e os espólios por catalogar em Portugal?"
O seu esforço foi trazer o maior número de informações possíveis sobre os textos já conhecidos. Por fim, refere que um trabalho destes comporta sempre deslizes, por isso, apresenta desculpas antecipadas
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(Continua).

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de P. Franchetti

III.1.3. Manuscritos dispersos.

Começa por referir o aspecto da maior parte dos manuscritos de C.P. se terem, muito provavelmente, perdido. "O poeta distribuía-os prodigamente a amigos e conhecidos." Essa perda teve consequências para a edição da sua obra poética. Não se podem medir os estragos causados. Faz, P.F., uma cuidadosa verificação de todos os documentos e partilha com o leitor as suas descobertas, dúvidas e certezas.

III.1.4. Poemas publicados durante a vida do poeta.

Não havia tão poucos poemas de C.P., como era comum dizer-se. É a constatação que P.F. faz. São numerosos os poemas publicados em vida do autor. Em nota o editor remete o leitor para o fim do volume onde se encontra a relação dos poemas.

III.1.5. Publicações póstumas a partir de autógrafos. 

São três textos cujo paradeiro P.F. desconhece. No entanto, são aqueles testemunhos de que também se serviu J.C.O..Segue-se a descrição.

III.2. Formas de registo e anotações e variantes.

As variantes vêm quase sempre referidas, diz-nos P.F., para uma melhor e mais fácil leitura. Quer no rodapé do texto, quer nas notas e comentários do aparato genético.
As convenções em rodapé são: "marcação com asterisco se se trata de variante de título, dedicatória ou numeração de poema; as variantes de verso vêm identificadas pelo número do verso a que se referem. No rodapé do texto as variantes são transcritas e, a seguir, indicada a edição em que se encontra cada uma, de acordo com as convenções" que foram utilizadas: A, B, C, D.
O primeiro verso de cada estrofe vem de acordo como Pessanha o dispunha nos manuscritos. "recolhido em relação aos seguintes". Com excepção do poema "Desejos" que se alinha à esquerda. Também optou, P.F., por iniciar os versos com maiúsculas como a maioria dos autógrafos de C.P.
"As convenções adoptadas no aparato crítico, para registo das variantes e das correcções do autor, foram pensadas em função da especificidade dos manuscritos a descrever..." Tentou P.F. fornecer todas as anotações possíveis para "permitir ao leitor interessado a leitura e cotejo das mesmas."
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(Continua)

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de P. Franchetti

III. Critérios para o estabelecimento dos textos e registo de variantes.

A primeira intenção de P.F. é "libertar os textos de todas as intervenções não justificadas dos editores," com principal incidência nas de J.C.O. Serão reparados quanto à métrica, quanto à pontuação, e quanto aos títulos que foram acrescentados ou, suprimidos. Depois de enumerar vários versos e exemplos flagrantes de alterações, P.F. informa-nos que se esforçou por, "nos casos em que havia conflito entre um documento autógrafo ou publicado e a versão de Castro Osório." modificar, "sempre que plausível" o texto de J.C.O..

III. 1. As fontes.

São várias as classes de documentos de que P.F. se serviu para estabelecer o texto dos poemas de C. P. Consideremos as informações que nos transmite. Escolheu dividi-los em seis grupos.

1º - As edições da poesia de C.P., pela seguinte ordem: Lusitânia, e Ática;
2º - manuscritos autógrafos da B.N.L., que pertencem a J.C.O.;
3º - um caderno que contém manuscritos autógrafos e recortes de poemas publicados em jornais, com correcções, que está depositado no Arquivo Histórico de Macau;
4º - conjunto formado por manuscritos autógrafos dispersos...
5º - conjunto de poemas publicados em vida do autor, em jornais e revistas...
6º - pequeno grupo de textos póstumos, publicados a partir de autógrafos perdidos, ou com paradeiro desconhecido.
Nos pontos que se seguem, o editor crítico, descreve "os demais conjuntos de testemunhos de onde proveio o texto dos poemas de Pessanha, identificando em cada grupo os documentos que forneceram a lição," por ele seguida.

III. 1.1. Os manuscritos de 1916.

Chamada de atenção para o facto de neste seu trabalho aceitar na íntegra os manuscritos de 1916. Retrato completo e descrição de todos os versos.

III.1.2. O Caderno e Camilo Pessanha.

Encontra-se no Arquivo Histórico de Macau A descrição deste caderno é exaustiva e as considerações de P.F., também são muitas, inclusive erros de cópia, etc. (desde a pp. 52 à 63)
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(Continua)


quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de P.Franchetti

Contra esta hipótese, P.F. apresenta todos os indícios da carta de Pessanha ter sido de mera cortesia. Segue-se uma entrevista de A.C.O. ao Diário de Lisboa, de 21/4/1921, em que, a editora de A, "não enfatizava qualquer participação de Pessanha na ordenação" de A. Nas páginas que se seguem P.F. apresenta todas as dúvidas que se lhe colocam e, para as suas interrogações, vai sempre encontrando respostas hipotéticas, mas fundamentadas. Uma carta a José Pessanha, de 1888, uma crítica de C.P. a um livro de poemas de António Fogaça, onde refere que lhe faltaria "um desenho geral e coerente", a opinião de Esther de Lemos, outro trabalho de António Falcão R. de Oliveira, etc.
Por fim reafirma a sua tese de que "a ordenação dos poemas é um problema sem solução," uma vez que não há nada que confirme que a organização do livro se devesse à vontade do poeta, ou "pelo menos quanto à ordenação de alguns poemas." Não considera, por isso, que a única edição em vida de Pessanha seja a lição a seguir, "mesmo havendo um documento autógrafo a sancioná-la." E a solução de apresentar a edição A e depois os «Outros poemas» também não o satisfaz.
Parece-lhe "mais correcto e adequado observar, na ordenação dos poemas, apenas as orientações indubitavelmente atribuídas a Pessanha." Quanto ao nome a adoptar, para a actual edição crítica, será Clepsydra. As peças serão colocadas "pela cronologia dos textos, segundo os seguintes princípios: 

A) quando for conhecida a data da composição da primeira versão do poema ela terá precedênca sobre as     datas da revisão...
B) textos que trazem apenas indicação do ano serão antepostos aos datados do mesmo ano, mas com a indicação do mês;
C) quando não se conhecer manuscrito, nem houver registo confiável da data da composição, os textos virão ordenados pela data mais remota em que foram mencionados ou, na falta de qualquer registo, pela data da primeira publicação.
D) quando tiverem a mesma data, os textos virão dispostos por ordem alfabética de título ou primeiro verso."

Está traçado para o leitor o método utilizado e a escolha feita pelo editor P. Franchetti. Este, frisa ainda que "os poemas virão a seguir dispostos sem outro critério que não seja a frágil cronologia possível, mantidas apenas, no nível temático as indicações sequenciais presentes nos autógrafos de 1916."
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(Continua)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Clepsydra de Camilo Pessanha - Sinopse da E.C. de P. Franchetti

II. 1.1. A lista dos poemas a recolher para a Clepydra. 

Na edição de 1945, J.C.O., apresentou "uma lista de poemas, dividida em sonetos e «poesias», que teria sido elaborada por Pessanha por ocasião do seu regresso definitivo a Macau". P. Franchetti enumera, cuidadosamente, os poemas e diz das probabilidades, certezas e incertezas das informações sobre a sua origem. "Teria existido realmente essa lista?"... "Seria documento autógrafo de Pessanha?" O facto é que "tal lista não se encontra entre os papéis hoje depositados na Biblioteca Nacional. Ou melhor, não se encontra na forma em que foi descrita por Castro Osório." Porque P. Franchetti  conclui que, "Camilo Pessanha deixou de facto escrita em 1916, uma relação de poemas, de que hoje resta apenas um fragmento." As suas investigações localizaram-na, em 1991, embora não estivesse registada no inventário do espólio. Descreve a  «procuração» deixada em verso, por C.P. a Ana de Castro Osório e o respectivo fragmento de que não tem a certeza ter pertencido "à famosa lista".
Muitas foram as fontes e o que mostram, é a impossibilidade de determinar se a edição de 1969, corresponde "à intenção do poeta".

II. 1.2. As indicações nos autógrafos para a Clepsydra de 1920.

Neste ponto, P. F. continua a trabalhar todos os dados, para apurar uma possível base científica em que apoie a sua edição crítica. Conclui que "não há como saber o que Pessanha teria dito a Castro Osório. Mas há sim, hoje, como saber o que ele deixou por escrito. E o que deixou é bastante para, pelo menos, nos mostrar o que não disse." Volta a explanar sobre a questão e a contradizer J.C.O. e a própria editora de A. Desrespeitaram "as únicas indicações de sequência que Pessanha deixou registadas nos autógrafos de 1916."
Com a transparência que deve nortear uma investigação, P.F. diz ao leitor que "na verdade, são poucas as informações de Castro Osório em que nos podemos fiar descansadamente. (...) Se é certo que ele contribuiu muito para divulgar a obra de Pessanha, também não o é menos que com ela tomou liberdades excessivas."
Por esse motivo, considera P.F. que poderá "sem temor de incorrer em improbidade, buscar uma nova forma de ordenação dos poemas conhecidos de Camilo Pessanha."

II.2. A ordenação dos poemas de Camilo Pessanha neste trabalho.

Uma vez que às edições de B e D não há como reconhecer autoridade na sua reordenação, e isso parece claro a P.F., este interroga-se, em seguida, até que ponto a edição A terá reflectido a vontade de C.P.. Uma nova edição deveria apresentar, em separado e na mesma ordem, o conjunto de poemas da edição A? Seria ela, fiel à vontade do poeta?
A favor desta tese "há uma carta de Pessanha, datada de três de Junho de 1921, endereçada a Ana de Castro Osório: (...) «não quero deixar de agradecer-lhe, penhoradíssimo, a publicação da esquecida Clepsydra, e os cuidados da disposição (que é como eu próprio a faria) e da ortographia. (...) Acredite que foi das mais doces commoções da minha vida e da minha surpreza, ao ver assim evocada e acarinhada deante dos meus próprios olhos a minha pobre alma - ha tantos annos morta...»"
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(Continua)