quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

«Manual de Epitecto»(4)

XXII

Se tu desejas ser filósofo, prepara-te desde logo para seres ridicularizado, zombado e escarnecido pelo comum dos homens. Que dirão: "Então este indivíduo assim se tornou filósofo tão de súbito?" E ainda: "E que ar orgulhoso não é agora o seu!" Quanto a ti - que nenhum orgulho te habite. Dedica-te ao que melhor te parecer, como se Deus te tivesse escolhido para os teus empreendimentos. E não te esqueças nunca de que, caso teimes nos teus propósitos, aqueles que no começo mofavam de ti serão os primeiros a admirar-te. Mas se, perante as zombarias, te deixares abater, então, ó caro, serás ridículo, não uma vez, mas duas vezes.

XXI

Certo é que a morte, o exílio, outros horrores e sustos todos os dias, todos!, se encontram sob os teus olhos. Mais do que tudo, porém, se ergue a morte. E aqui a tua fala não dirá coisa de pouca monta - e também o teu ânimo a nada se atreverá que desmedido seja.

XX

Reconsidera o seguinte: quem te injuria não te injuria; quem te agride não te agride; quem te ultraja não te ultraja. Então quem te ultraja, agride e injuria? O juízo, o julgamento, a sentença de quem assim procede contigo - e também a tua opinião sobre o acto de que foste vítima. Assim, pois, quando alguém provocar a tua ira, sabe que essa tua opinião é que irado te torna. Sendo assim as coisas, não te precipites e doma as tuas ideias. Porque segura é uma coisa: se ganhares tempo e pausa a fim de ponderares o acontecido - então, facilmente, serás senhor de ti mesmo.

XVIII

Não te perturbes se um corvo lançar um grito de mau augúrio. Pondera, distingue entre as tuas ideias, e diz para ti mesmo: "Este grito nada pressagia de mau para mim. Sim para o meu pobre corpo, para os meus pequenos haveres, para a minha vã glória, para os meus filhos, para a minha mulher. Quanto a mim, todo o augúrio é bom, se tal for o meu desejo. Porque, aconteça o que acontecer, só de mim depende que do acontecimento eu devidamente me aproveite."

XVII

Lembra-te que és tal como um actor no desempenho do papel que o dramaturgo te quis proporcionar: breve, se breve; longo, se longo. Se o dramaturgo deseja que representes um papel de mendigo, representa-o devidamente. Procede da mesma maneira se te couber um papel de coxo, de magistrado, de mero indivíduo comum. Só de ti depende que saias bem na representação da personagem para a qual foste escolhido - mas não esqueças nunca que a outrem pertence a escolha dos papéis que te couber.

XIII

Se desejas ser bem sucedido, resigna-te caro, face às coisas exteriores, por passar por insensato ou mesmo por tolo. Mesmo que saibas, não mostres qualquer saber; e se alguns te considerarem alguém, desafia-te a ti próprio e desconfia de ti. Que saibas sempre, na verdade, que não é fácil de preservar a vontade em conformidade com a natureza, pois que, simultaneamente, sempre nos inquietamos com as solicitações do exterior. Ora que fazer? Só uma regra necessária se impõe: quando nos ocupamos da vontade tendo a natureza por fundo (e  nossa íntima intenção) só a uma coisa nos podemos obrigar - evitar qualquer desvio daquele nosso primeiro propósito.

quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

«Manual de Epitecto» (3)

                                                                            XXXIX

As necessidades do corpo são a justa medida do que cada um de nós deve possuir. Exemplo: o pé só exige um sapato à sua medida. Se assim considerares as coisas, respeitarás em tudo quanto faças as devidas proporções. Se ultrapassares estas proporções, serás, por tal maneira de agir, necessariamente desregrado como se um precipício te seduzisse. O sapato é exemplo ainda deste estado de coisas: se fores para além do que o teu pé necessita, não tardará muito que anseies por um sapato dourado, por um sapato púrpura depois, finalmente por um sapato bordado. Uma vez que se menospreze a justa medida, deixa de haver qualquer limite que justos torne os nossos propósitos.

                                                                          XXXVIII

Assim como evitas pisar um prego, e tens todo o cuidado em não torcer o pé, assim também evita pôr em causa os teus princípios. Se, nesta ou naquela tarefa, tivermos este cuidado, mais seguros nos sentiremos na execução da mesma.

                                                                           XXXV

Quando reconheceres que deves proceder desta ou daquela maneira, não te envergonhes da tua acção mesmo que façam má opinião de ti. Se a acção do teu procedimento se revestir de mal, coíbe-te, na verdade, de a praticar. Mas se o bem  presidir à tua acção, porque deverás temer os que te censuram de maneira vã?

                                                                            XXVIII

Se alguém entregasse o teu corpo ao primeiro desconhecido, indignado ficarias certamente. E tu, quando a tua alma entregas ao primeiro que encontras para que a perturbe e arruíne, e ele a tua alma injurie deveras, não sentes vergonha por tal acção tua?

                                                                             XXVII 

Assim como o alvo não é colocado para ser atingido, também o mal, do mesmo jeito, não existe no mundo.

                                                                              XXIII

Caso concedas, por acaso, a tua atenção ao exterior, num acto de pura condescendência por alguém ou por alguma coisa, que saibas perdeste a autoridade que até esse momento de todos merecias. Contenta-te, por conseguinte, em ser filósofo em todos os teus actos. Mas se verdadeiramente o desejas ser, sê-o primeiro face a ti mesmo - e que isso te baste!


terça-feira, 9 de dezembro de 2014

«Manual de Epitecto» (2)

O Manual de Epitecto pode caracterizar-se pela sobreposição da vida interior sobre a vida exterior. É um livro que data de 50 a. C., um tempo de crise determinado pelo declínio das cidades gregas, edificação ainda muito débil das monarquias helenísticas e primórdios da fundação do Império romano. Um tempo de crise, de corrupção, da perda de muitos valores - e, daí, a necessidade de um discurso que ensinasse os homens a viver uns com os outros e também a defender-se no mais íntimo de si próprios.
Constituído por cinquenta e três diatribes, o Manual, surgido das cogitações de um escravo-filósofo, ensina-nos a preservar a nossa integridade através de exemplos muito simples, quase todos captados no quotidiano de então, quotidiano esse que, sob tantos aspectos, muito se assemelha ao nosso. (...)
Epitecto querendo inteirar-se do conteúdo da Filosofia, foi-lhe permitido assistir às lições  de Caius Musonius Rufus, filósofo estoico com escola estabelecida em Roma. Anos depois, a juventude romana enchia os locais em que Epitecto expunha a sua maneira de encarar a crise que então abalava o fim do mundo helénico e o começo do mundo romano.
Morreu de idade avançada, quando cidadãos do mundo civilizado da época citavam de cor as suas máximas, diatribes e aforismos.

Este texto foi retirado (com cortes e adaptação) das badanas do Manual.  Não enuncia o autor, motivo pelo qual vos digo que a tradução do livro é de Pedro Alvim (do francês, de M. Meunier, G. - F., 1964). Vamos às máximas:
                                                                             XLII

Quando um homem te prejudicar, ou de ti falar mal, parte do princípio de que ele pensa que é seu dever agir ou proferir palavras de maneira danosa. Assim sendo, é absolutamente impossível que ele se aperceba do teu sentimento ferido: para esse indivíduo, o que está certo é a sua maneira de actuar. Ora se ele se comporta mal para contigo, unicamente se prejudica a si próprio - e a sua vida decorre no erro. É tal e qual o que sucede quando alguém tem por falso um juízo verdadeiro: esse juízo não é aqui afectado, e sim o que por afectado o tem que se encontra enganado. Se por estes princípios regeres a tua conduta, será com bonomia que suportarás aquele que te injuria. Para tua defesa, repete de cada vez quando alguém te ofenda: "Quem me ofendeu pensa que agiu bem."

                                                                            XLIII

Qualquer coisa tem duas asas: uma que nos permite a levemos connosco, a outra que tal intenção não nos facilita. Se o teu irmão tem mau feitio, não o chames a ti levando a mão à asa que se manifesta de modo errado. Por aí, é-te impossível levar a bom termo o teu propósito. toma-o antes pela asa boa, pela mão que se não recusa à tua mão - e se te lembrares que ele é teu irmão, que foi amamentado contigo, logo verás que o podes chamar a ti.  

segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

«Manual de Epitecto» (1)

Epitecto  nasceu pelo ano 50 a.C., de uma família humílima, na Frígia, e, pelas conjunturas da vida, tornou-se escravo de um senhor da alta roda de Nero. Estoico e sabedor da doutrina de Sócrates, enfrentou o infortúnio com sabedoria, gentileza, fraternidade. Coxo por  tortura a que foi submetido pelo referido senhor, numa idade jovem, Epitecto aceitou o que o exterior muitas vezes lhe reservou e continuamente se elevou nas decisões conscientes da sua interioridade...
Que se atente na ferramenta da sua missão de filósofo: são os barcos, o circo, os festins ou repastos, os cavalos, o mar, o dia e a noite, os laços familiares, o sofrimento e a morte, as íntimas alegrias do dever cumprido, os oráculos divinos (um simples sapato até) que lhe servem para elaborar magistrais lições de filosofia, através de máximas, diatribes, aforismos, sequências com ilação final... Enfim as primícias da vida como instrumentos de diálogo.
Um homem, portanto, que, com os sentidos na vida de todos os dias, procurava fazer-se entender pelos outros, o mais rentemente possível, a fim de que ele e os outros se elevassem até uma outra espécie de vida - precisamente aquela que se sobrepõe, por uma atitude de espírito, à vidinha de todos os dias.
O que de Epitecto nos chegou não foi por ele escrito (assim Sócrates procedeu também) - e sim por um seu discípulo, de nome Flavius Arrien, que, tendo-o como mestre da comunidade, assentando foi o que lhe era dado escutar. Em boa hora o fez, muito embora dos oito livros que assim coligiu unicamente quatro tivessem circulado por entre os homens de então. O Manual,  e ainda por iniciativa de Flavius, é constituído pelo essencial desses quatro livros - e desde há séculos (nomeadamente nos primeiros da era cristã) que tem vindo a desempenhar o papel de um amigo que, em certos momentos da vida, nos sabe dizer se à boa leitura formos dados: "Olha que não é assim, olha que as coisas são enganadoras, olha que outras razões mais subidas há..."  - e filósofos, por exemplo, Pascal, acusaram a sua influência nas doutrinas muitas que foram erguendo.
Será que o mundo de hoje suportará um pensamento estoico, assente na disciplicência e na virtude? Será que qualquer um de nós saberá ainda dizer a si próprio que faz parte da humanidade e que os outros também da humanidade fazem parte? Que ninguém é superior a ninguém, e a nada, e a si próprio inclusive - e tão só um cidadão que deverá saber, como diz Epitecto, que o seu pé é a medida do seu sapato, e não o sapato que engrandece esse mesmo pé, pisando o mundo como senhor e dono?

Estas palavras fazem parte do prefácio de Pedro Alvim ao Manual de Epitecto, Vega Limitada, 1992 - Passagens - e foram adaptadas, com cortes, por mim, para tornar a transcrição mais pequena. Em seguida escolherei algumas máximas para os meu leitores. Assim como vos falarei sobre o Estoicismo. Espero que gostem de ler. Vou começar praticamente pelo fim:
                                                                               L

Sê fiel a tudo quanto te for interdito. Sê fiel à interdição. Tem-na, à interdição, como lei que tu não deves transgredir. (Se o fizeres, a impiedade habitará em ti.) Não dês atenção ao que digam de ti, pois o que de ti disserem  nunca depende de ti.





  

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Nossa Senhora da Alegria

Neste Outono ora alegre ora triste, viajava ao passado buscando os dias assombrados de alegria, que sempre lhe quiseram roubar. Alegria tão pura, tão risonha, que enchia os dias de espanto e espantava em redor. Sorria às árvores, às flores e aos frutos, aos passarinhos que arrulhavam nos ninhos, às águas revoltas do mar, às crianças e aos jovens, a todos sem distinção.
Tola! Diziam às escondidas. Não sabe que não se pode rir para tudo e para toda a gente? Que falta de siso! Nem Nossa Senhora da Alegria a protegeu! Rir, ser ingénua, sem malícia, era pecado. O caminho da vida foi tão recto, tão sem história, sorrindo sempre a espalhar alegria! Até que um dia, já não chegava dizerem que lhe faltava o siso. Irmanavam-na, caluniosos insanos, com as "jovens" que se compram pelas esquinas. Pobres desgraçados que não reconheciam numa Mulher a serena alegria da vida. Era irmã de todos os que sofriam e oferecia-lhes a sua franca alegria.
Hoje, o seu coração tão doente, tão cansado, já lhes perdoou e ora alegre ora triste, como este Outono, continua a sorrir à vida.

sábado, 12 de julho de 2014

Tanta Luz!

Tanta luz, tanta luz, que o dia de sol de Verão nos oferece com tanto carinho! Não há luz como a de Lisboa, não há! Olhai o azul do céu como é belo e intenso de tão afirmativo. Não me canso de olhar o céu da minha janela. Brilha como nenhum e a sua luz não tem igual. Já viajei por meio mundo e não conheço luz como esta  de Lisboa. As árvores estremecem com os zéfiros que as embalam e lhes sussurram cantigas de encantar nesta hora da sesta. A minha avenida está mais vazia. Os carros foram passear, levar os meninos e os pais à praia, ao mercado, sabe-se lá! É bom ver os estacionamentos mais livres e sós. Eu gosto de olhar o comprimento da avenida vazia de carros. Alguns estão estacionados e sós. Não se queixam do calor nem de estar sós. Eu estou sempre só. Gosto de estar só. Nunca me aborreço. Lembro o verão da minha infância. Cada verão de encantamento! Como foi feliz na minha infância! Como eu adorava o verão! Nunca estava só. Ninguém me deixava sozinha. Éramos tantos meninos e meninas! Juntavamo-nos a brincar na areia da praia e a nadar no mar. Eram tantos os sorrisos quando se molhavam uns aos outros. Alegria  desmedida que ecoa nas tardes sós do meu verão actual. Gosto de saber que os jovens se divertem nestes dias de verão. O verão da minha infância é eterno para mim. Cada verão era tão contente como eu era contente no verão! Tudo que fui passou para todos. Para mim não. O meu verão da infância vive comigo intacto. Só comigo. Por isso estou só mas nunca estou sozinha. O meu verão tinha nove meses. A mãe levava-nos à praia todo o mês de Março. A comida vinha do hotel para toda a família porque a mãe ia connosco para a praia. Que liberdade! Que boa era a inocência! As avenidas no verão ficam mais sós. São as férias dos meninos e das mães. Verão eterno da minha infância, olhai como é longa a avenida, vamos à praia? Eu gosto de estar só. Nunca estou sozinha.       

quinta-feira, 20 de março de 2014

Primavera!

Chegou a Primavera! Nasce o Sol e Aurora resplandece rodeada de flores e de cores que a envaidecem. Chegou a Primavera! A noite é porfiada pelo dia quando ficam ambos com o mesmo tempo de acção. Mas a Noite sorri e diz ao Dia:- és tão breve para quê essa porfia? E o Dia diz-lhe: - o Sol é o mais Belo astro que nos ilumina! Conheces mais bela estação que a Primavera? Até tu, ó Noite, tens outro esplendor! A lua que te ilumina em todos os recantos senta jovens apaixonados. Pois, diz-lhe a Noite:- o dia de intensa alegria permite que entrem na noite a sonhar. Sonham e fazem juras de amor eterno, ouvem os sinos da aldeia e não estão cansados, nem se lembram que são horas de regressar. Eu bem tento fazer-lhes ver que tu és pura ilusão nestes dias, mas eles cantam hinos à Primavera  na sua juventude repleta de amores. Não conhecem os perigos da noite, nem a sua solidão. Ouvem os gemidos de crianças  a nascer durante a lua nova e sentem-se ufanos de estar a crescer. Sonham que os rouxinóis cantarão só para eles, que as andorinhas farão os seus ninhos nos beirais das suas casas, que as rolas arrulharão nos seus quintais e que o rosmaninho encherá de perfume os seus caminhos. Só tu ó Noite, diz-lhe o Dia: - gostas de matar as ilusões. Deixa-os sonhar que se embrulham em cetins, que vestem capas de veludo para te deslumbrar e que assim será para todo o sempre. Não vês tu que eu tenho o dom de os fazer sentir-se Reis e Rainhas, protegidos de todos os ventos e marés e de os deixar sentir o cheiro da maresia sem conhecerem os perigos do mar? Eles sentem forças desmedidas sentem-se belos, sentem-se amados e sonham que esta  Primavera durará toda a vida! Ora essa! diz a Noite  ao Dia: - Então tu não vês que eu sou mais poderosa? Tu tens um dom? E eu? Sabes que tenho o dom de esconder a realidade, faço-lhes ver as sombras mais claras mais escuras para não reconhecerem os inimigos que farejam nas noites de breu. Tudo são sonhos rosados de dias inebriados do Sol que tudo lhes promete. Mas os inimigos espreitam, ó Dia! Deixa-os sonhar ó Noite! Diz-lhe o Dia: - Ainda agora cheguei, deixa-os sonhar ó Noite! Eles ainda não conhecem o frio do Inverno, que esse é para os seus pais e avós. Deixa-os sonhar ó Noite! Chama os Zéfiros brandos e diz-lhes que soprem em sussurro: A Primavera é eterna ela surgiu para te deslumbrar. Ela viverá eternamente em ti, senão no teu corpo, viverá na tua alma. E amarás para todo o sempre. Chegou a Primavera! Viva a Primavera que vive no meu jovem coração.