segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

"A Nova História" (conclusão)

"Para o historiador, tudo começa, tudo acaba pelo tempo (...) tempos múltiplos e contraditórios da vida dos homens (...) tempo social de mil velocidades, de mil lentidões." (26)
F. Braudel

CONCLUSÃO

Esta "abstracção do modelo" verifica-se porque a História nova o tem sido, mesmo inclusivamente "em relação aos trabalhos de Fernand Braudel e à escola da revista Annales". Essa é a principal diferença em relação às correntes anteriores. Talvez os historiadores actuais se encontrem, como os primordiais, em busca de um modelo que dê resposta à sua necessidade de historiar. E este historiar é novo porque o próprio historiador se põe em causa como "observador". "Deixou de falar sob o ponto de vista absoluto", quer ele fosse mitológico e heróico, como o faziam os "logógrafos", ou baseando-se em Deus como explicação e justificação das acções dos homens ou "o progresso da humanidade, a luta de classes".
Hoje o historiador tem que justificar a necessidade e a urgência dos seus trabalhos, porque o seu campo de trabalho passa-se dentro da "História dos povos e das mentalidades", por isso de difícil delimitação. E esta nova História está empenhada, ao mesmo tempo, na renovação do estudo contemporâneo - na História do presente, do quotidiano - e no estudo da História mais antiga, "na ideia que temos dos Hititas, dos Gregos e dos Romanos."(26) Afigura-se-me, de facto, um projecto tão ambicioso que revoluciona o campo das ideias. Possui um discurso novo, também "baseado em observações científicas muito seguras", e consegue, de facto, pelo "prazer do texto"(27), organizar-se como uma ficção.
Termino como principiei: "A História é a Vida", e não será a vida uma imensa ficção? Por isso, a História jamais terá fim, contrariando os paladinos que o anunciavam, como é o caso mais recente de Fukuyama. estaremos a viver precisamente um momento em que é necessário substituir a ideia de História porque a anterior findou? Mas isso é a prova mais evidente que ela está viva, novos fluídos irrigam as suas veias. A História continuará para além da transformação do tempo. Enquanto pulsar vida ao cimo da terra haverá sempre uma nova História que se anuncia.
Vivemos possivelmente o início de uma terceira guerra mundial; os direitos humanos estão a ser violados, povos dizimados, os regimes políticos foram abalados, cairam os muros, as "chagas" do comunismo estão patentes. A democracia enfrenta um desafio, é posta em causa; no horizonte novas formas de absolutismo, de censura, de fanatismos religiosos se vislumbram.
Nacionalismos, racismos, lutas tribais, fome, desemprego, desamparo na infância e na velhice, questões de fronteiras e ambientais, são todos os dias postas aos homens. As mais elementares regras éticas, quer no plano pessoal, quer no plano social, são violadas; existe uma falta de fé no progresso, nas próprias estruturas religiosas, quer elas sejam católicas ou saídas da Reforma. Verificamos que não dão provas, na prática, da bondade, fraternidade, inter-ajuda cristã. Pelo contrário, é nítida a necessidade de poder, de afirmação. Essas atitudes levam a surgir seitas, adivinhos, superstições, que alimentam a necessidade que os homens sentem de acreditar em algo.
E de um tempo de "mil velocidades" científicas que nos colocou perante todo este aparato bélico mortífero da guerra do Golfo, dos processos químico, biológico e de manipulações genéticas, sentimos que se poderá regredir para o obscurantismo, para um "tempo social de mil lentidões", se os homens não acreditarem em si próprios e não encontrarem dentro de si forças para mostrarem que é possível acreditar num mundo melhor, e partir para a sua construção com fraternidade.
Eis, para mim, a imensa tarefa que se apresenta à nova História, ao historiador: fazer com que renasça a forma como Políbio via a História, como "mestra da vida", para que, através dela, se faça luz na mente dos homens e verifiquem que, como dizia João Paulo II, em apelo à paz, "a guerra é uma viagem sem retorno".
Eis a justificação e a urgência do trabalho do novo historiador: contribuir para alicerçar um mundo de ideais fraternos e democráticos. E porque "não existe nada fora da História": (28)ajudemos nós todos e cada um, a edificação da nova História num sistema sempre em aberto, mas sem fim.
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Notas:
(26) - Le Goff, J., e outros, «A Nova História», pp.9.
(27) - Idem, cit. Duby, Georges, pp.43.
(28) . José Saramago, in entrevista de Fernando Dacosta, JL, nº 50, de 18 a 31/01/83, "Escrever é fazer recuar a morte é dilatar o espaço da vida."

"A Nova História" (continuação)

Esta mudança de objectos permitiu que a nova História fosse melhor aceite pelo público. Mas esta aceitação terá que ver, possivelmente, também com o papel desempenhado pelos "mass-media", que, segundo Michel De Certeau, "ocupam hoje em dia, em grande parte, o lugar que a História tinha no séc. XIX."(18) Certamente que os jornais e os audio-visuais divulgaram de uma forma didáctica, e ao mesmo tempo divertindo, esta nova História. Talvez aí resida o seu sucesso, que, não só no seu adoptar de temas parcelares, ou novos objectos, os próprios historiadores quase que substituem "os romancistas como testemunhas do real." (19) A televisão contribui para a actualidade histórica com as suas reportagens que dão imediatamente a imagem dos acontecimentos "em países longínquos, como se a distância do tempo fosse substituída pela do espaço."
Porém, apesar de todas estas alterações e inovações no campo das novas técnicas visuais e informáticas, a História nova é, segundo J. L. Goff, fundamentalmente científica e mesmo universitária,"(20) apesar de não ser, segundo parece, esta a mais divulgada, mas sim aquela que é preparada pelos "especialistas" (não científicos) da televisão e das revistas ditas históricas, mas que permitem, segundo Emmanuel Le Roy Ladurire, aos historiadores científicos "penetrar nesse imenso mercado mesmo modestamente." (21)
Todo o processo evolutivo mundial leva a repensar a História hoje, e tudo parece ser posto em questão. Sucedem-se os debates, e os critérios quanto à sua especificidade são postos em questão. Os próprios historiadores se interrogam e se questionam conscientemente àcerca da possibilidade de a História ser possível como uma "ciência pura." (22) E porquê? Porque talvez esta só fosse possível numa perspectiva sincrónica da História. E então tornamos a verificar o gosto pela análise do acontecimento, em que se dê uma tomada de posição por parte do historiador. mas será isto possível? Penso que não, porque os documentos que traduzem os acontecimentos, sabem-no os novos historiadores, "são produto duma certa orientação da História,"(23) ao qual deve ser feita a crítica.
Talvez o progresso, que trouxe a informatização, as guerras químicas e biológicas, uma tecnologia que ameaça a destruição do próprio homem, o faça repensar-se e pôr em dúvida esse próprio progresso. E então interroga-se, através da História: "Quem somos, donde vimos, para onde vamos?" (24)
A próxima batalha a vencer pelos historiadores é, por isso, dominar "uma História do presente," (25) para corresponder a essa necessidade premente de identificação. Mas como vencer esse desafio da modernidade, se ao historiador se deparam dificuldades inúmeras? E aqui cito, como exemplo, o acesso aos arquivos de Salazar, que ainda não estão à disposição dos historiadores, para os consultarem. Tal como estes arquivos não são acessíveis e estão condicionados por um período de um quarto de século para se poder pesquisá-los, muitos outros exemplos, possivelmente, poderiam ser citados. Por outro lado, a enormidade de documentos produzidos pelos media também coloca questões de análise e de abordagem ao historiador, que se depara, nesse campo, com outros especialistas, "politicólogos, jornalistas, sociólogos" mais vocacionados para uma história do momento.
São imensas as dificuldades e os desafios que se colocam à Hstória nova, "reencontrar o real", já não sob a forma de narrativa, de anais, de crónicas, mas tendo "ideias sobre o presente" e pô-las em prática, pois este êxito da História nova parece assentar precisamente "da abstracção do modelo" na pluralidade, na diversidade do real.
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Notas:
(18) - Le Goff, J. e outros, «A Nova História», ed.70, Apr. pp.12.
(19) - Idem, cit. Paul Veyne, pp.16.
(20) - Idem, Le Goff,J., pp.18.
(21) - Idem, cit. Le Roy Ladurie, E., pp.19.
(22) - Idem, pp. 33.
(23) - Idem, cit. Le Goff, J., pp.34.
(24) - Idem, pp.26.
(25) - Idem, pp.25.

domingo, 8 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Se na história do passado havia documentos que permitiam uma relação causa-efeito, nesta História do presente apresentam-se imensas dificuldades a superar. Uma, que considero das maiores, é precisamente a da interdisciplinaridade, necessária para se compreender a totalidade social. É difícil. Porquê? Porque penso que os saberes vivem muito como "ilhas", separados dessa totalidade que o historiador novo pretende obter. Para estudar o "homem total", a História deixará de ser um trabalho isolado de arquivo e biblioteca, de documentos escritos quase unicamente (como o fora para os positivistas), para passar a ser uma "construção" de equipa, em que vários especialistas compartilham o seu saber e trabalham para um mesmo fim. Para Lucien Febvre existe apenas História na sua unidade. Esta unidade é trabalhada entre os anos 20 e 40 em França. Marc Bloch e Lucian Febvre são os protagonistas. Creio que é importante referir o trabalho que Lucien Febvre fez sobre Lutero em 1929, e sobre Rabelais em 1942. Neste último trabalho falará sobre a "utensilagem mental", que definia como o estado da língua no seu léxico e na sua sintaxe. Quais os utensílios e linguagem científica disponíveis? Quais os sistemas de persepções que comandam as estruturas da afectividade? Afinal, o cruzamento dos vários suportes linguísticos conceptuais e afectivos não implicariam nas maneiras de pensar e de sentir dirigidas?
Panofsky virá mais tarde falar sobre o conceito de "hábitos mentais", que tinham que ver com o inconsciente colectivo, princípios interiorizados que davam unidade à maneira de pensar de uma época. Este conceito estava ligado à psicanálise. O de Lucien Febvre estudava o aspecto linguístico mental. Creio que este aspecto é de primordial importância para o avanço da escola dos Annales em direcção à História nova. Robert Mandrou, um dos historiadores dos anos 60, publicou uma importante obra, em que põe em prática este conceito de "utensilagem mental",(14)que iria tornar-se, então, património dos historiadores. Deu importância às categorias psicológicas, tentando reconstituir os sentimentos e as sensibilidades inerentes aos homens da época moderna. O homem, quer do ponto de vista físico, ou psicológico, muda continuamente consoante o tempo e o espaço. Cada geração tem as suas características próprias.
Eis a dificuldade em fazer História: reconstruir o pensar e o sentir de uma época. A alimentação, ou a subalimentação, que vai originar diferenças na pirâmide de idades, a sexualidade, as espectativas de vida, o vestuário, a habitação, a saúde, a doença, a medicina existente, a educação e ensino disponíveis; tudo o que se conjuga para considerar o homem como um todo, e mesmo distinguindo o homem físico do psíquico (em que se estudam as sensações, sentidos, emoções, paixões), Robert Mandrou utilizou técnicas que se aplicam a outros períodos.
Isto é um breve resumo daquilo que eu considero terem sido as "sementes" lançadas por Lucien Febvre e a escola dos Annales para uma História nova. Ainda nesta linha de pensamento histórico estão os Padrões de Cultura, de Margaret Mead e Ruth Benedict (antropólogas americanas), que são coincidentes com os de utensilagem mental, apesar de este conceito se ter revelado muito mais completo para um estudo da história das mentalidades. Se pensarmos que também no princípio do séc. XX se verificava uma crise da História, se aliarmos este aspecto ao desenrolar dos acontecimentos que deram origem à primeira guerra mundial, melhor comprenderemos a importância de Marx e Engels, e de Freud, quando diziam que "o facto" nada vale fora do contexto. Dá-se como que uma descida do homem do seu pedestal, o humanismo era posto em causa, e o estruturalismo iniciava uma nova História, que já não detém o exclusivo do conhecimento humano, após emergirem outras ciências sociais e humanas.
Mas eis que, com o eclodir da guerra e o seu fim, se dá uma reformulação da ciência histórica. É ao analisarmos todas estas variâncias que maior valor podemos dar à "Escola dos Annales", verdadeiro berço da História nova, que irá responder às exigências de um novo saber, visto que a própria guerra e os seus resultados mostravam a incapacidade da História tradicional explicar semelhante conflito. Dá-se um alargamento do campo do documento, há necessidade de uma História imediata. Estudam-se as conjunturas, suas modificações, ciclos e abalos. Surgem as teorias de longa duração. A História é, agora, oscilatória e diacrónica. Os movimentos seculares(Trend), os ciclos de Kondratieff (50 anos) e os ciclos de Juglar (6 a 10 anos) entram na linguagem científica, analítica e crítica dos historiadores, agora, já não só no plano estritamente económico, mas para uma relação estrutural ampla e capaz de dar resposta à reformulação da totalidade do homem de cada época, inserido numa realidade económica e geográfica de uma sociedade com um sistema e um regime.
Em 1946 surge a Revista dos Annales com um novo título: Anais, Economias, Sociedades e Civilização; Fernand Braudel irá ser o principal mentor. A esse respeito diz Luís Barreto: "A revolução metodológica braudeliana representa a morte, enquanto investigação do tempo unidimensional, (...) porque a demonstração de que a diferença repousa na identidade, a descontinuidade implica a continuidade, a mudança atravessa e é atravessada pela permanência/herança. A consciência da pluralidade dos tempos do tempo é manifesta da História como complexidade." (15) Eis que irão surgir as bases de uma História nova efectiva, com toda a pujança, na sua aceitabilidade de constante diálogo com as outras ciências, numa dialéctica permanente com o tempo curto, médio ou longo, as permanências e mudanças.
A palavra "conhecimento" é muito importante para a História nova porque, no seu método de trabalho, o historiador aplica a heurística, a crítica histórica e a síntese para compreender os documentos e analisar causas e efeitos para melhor traduzir a ideia que comportam, apesar do historiador aceitar que o conhecimento do homem é sempre relativo. E aí talvez esteja a grandeza da História nova, porque, ao aceitar este facto, o historiador é, efectivamente, sempre um homem em busca, em análise, em pesquisa. Prova disso encontro-a no artigo de Francisco Belard, que escre a propósito dos Annales como escola, revista, arquivo...: "Sem repudiar nada do passado da revista, a direcção (...) Braudel é um período de longa transição, abrindo as vias do que se chamará a 'nouvelle Histoire', com a crise do sonho de uma 'História total', a fragmentação dos discursos, a busca obsessiva de temas e problemas, o apogeu da 'História das mentalidades', o declínio dos modelos estruturais e do primado do 'económico-social'."
"Surgem disciplinas de que o público nunca ouvira falar: História da morte, História do clima, História do medo ou das paixões. Dentro e fora dessa placa giratória que são os Annales, os novos historiadores ensaiam várias reabilitações: do acontecimento singular, da História política, do conceptual, do contemporâneo...Aparentemente, após assentar fundações no terreno económico-social, a História voltou a tomar banho no rio de outrora - mas as águas mudaram, bem como os métodos e o ponto de vista." (16). "Da História dos grandes homens e das grandes sínteses passou-se à História dos povos e das mentalidades, não só no plano contemporâneo como também da História antiga." (17)
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Notas:
(14) - Mandrou, Robert, «Introduction à la France Moderne», in notas das aulas de Cultura Portuguesa I, 6/7/89.
(15)- In Jornal Expresso de 7/12/85, pp.46-R.; in JL, pp. 10, de 25 a 31/12/84.
(16) - Idem pp.46-R.
(17) - Le Goff, J., e outros, «A Nova História», ed. 70, Apresentação, pág.,9.

sábado, 7 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Deixaria de haver o capital, ou mais valia, na posse dos burgueses capitalistas e o proletariado seria extinto. Uma 'tese' (baseada na dialéctica de Hegel), que seriam os factores de produção, a terra, a oficina, o comércio, etc.; a 'antítese', que seriam as relações de produção, a mão de obra, os assalariados e os seus conflitos laborais que, entrando em confronto, levariam à 'síntese': revoluções que alterariam completamente as estruturas. Esta visão global da História, incluindo o factor económico como determinante nas sociedades dos homens, terá um papel inovador, indo contribuir para o aparecimento da História nova, pelo papel de destaque que Marx e Engels dão ao homem na sua totalidade. À procura das transformações do homem, através da filosofia, Engels propunha:(...) "as causas finais de todas as transformações sociais e revoluções políticas, devem procurar-se, não no cérebro humano, não nos critérios humanos àcerca da verdade eterna e da justiça, mas nas transformações quanto aos modos de produção e de troca. Devem procurar-se, não na filosofia, mas na economia de cada período determinado." (12)
A noção de conjuntura e de estrutura estava proposta, a teoria materialista de História transformava Marx e Engels nos principais percursores da História Nova.
Eis-me chegada desta 'viagem' no tempo, a um tempo em que irá surgir a "morte, enquanto investigação, do tempo unidimensional." Repouso, enfim. Pouso a minha máquina do tempo em que me foi possível retornar à antiga Grécia e conhecer os primeiros mestres historiógrafos, deixo de lado talvez o quinhão de poesia, e torno, então, aos verdadeiros percursores desta História nova, porque não quero penetrar nestes magníficos tempos historiográficos sem recordar mais uma vez aqueles que foram tornando possível o estádio actual. As concepções da História do séc. XX resultam de um longo processo de tranformação operado a partir do Renascimento; porém, a base deste movimento cultural assenta na antiguidade clássica. Eis porque fui tão longe para falar da História nova.
Políbio já conhecia a História como universal e aplicava ao seu método as interrogações: Como? Porquê? Esta é uma visão eterna e moderna da História.
Não queria deixar de referir, neste trabalho, Fernão Lopes (1459) que se propõe, nas suas crónicas, "só a verdade". Mas, efectivamente, foi no séc. XVIII que Voltaire chamou a atenção para uma História económica, como de costumes, técnicas, de todos os homens; assim como, no séc. XIX, Chateaubriant e Guizot, propõem, uma História em evolução e explicativa. Michelet apela para uma História material e espiritual; François Simiand torna-se percursor ao denunciar os três ídolos para os historiadores: o político, o individual e o cronológico. Marx, um dos mestres da História nova, com a problemática interdisciplinar de longa duração e os modos de produção.
Finda a referência aos percursores, eis que surge em cena, no contexto das correntes historiográficas, a História nova que vai, a partir da primeira guerra mundial, com o contributo de Henri Berr, e, seguidamente, a escola dos Annales, formar uma nova perspectiva de se elaborar História. Pretende explicar o homem na sua totalidade. Este é subjectivo. Eis que a História se irá tornar subjectiva; este, como "objecto", está em permanente mutação; então a História ir-se-á tornar num sistema sempre em aberto.
Numa primeira fase surge, em 1929, a Revista dos Annales d'Histoire Economique et Sociale, fundada por Marc Bloch (1886-1944) e Lucien Febvre (1892-1966), que irá tornar possível a síntese destes percursores, pois desta "escola" dos Annales é que virão, numa segunda fase, a sair discípulos como Fernand Braudel, Robert Mandrou, Jacques Le Goff, e outros, que aplicarão aos seus trabalhos teorias expostas e testadas por estes mestres, fazendo "nascer" uma nova História.
Vão utilizar a interdisciplinaridade para poder compreender o homem total, e não só na sua inserção nos meios de produção e relações sócio-produtivas. Surge uma nova concepção do tempo e da História, porque esta "apela" para a geografia, inserindo o homem num espaço. Recorre à antropologia, à sociologia, à psicologia e psicanálise; faz-se uma História quantitativa e serial em que a estatística tem um papel importante. O historiador "constroi" o facto, mas para "um dia de síntese leva anos de pesquisa." (13) Dá-se uma associação da História às ciências humanas, investiga-se o mundo, a totalidade social, numa interacção a diferentes níveis: económico, cultural e social. Faz-se a História comparada das civilizações. Vitorino Magalhães Godinho, nosso historiador, fará parte desta "escola" dos Annales. Fala-nos do tempo como factor histórico. Temos, então, o sincrónico (o simultâneo), que nos reenvia para o diacrónico (sucessão no tempo). Estático e dinâmico, mudança e continuidade. Não mais faz sentido uma abordagem da História só no plano sincrónico, como faziam os positivistas.
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Notas:
(12) - Engels, F., cit. in Patrick Gardiner, «Teorias da História», Teste de História, 12º ano, 1988.
(13)- Braudel, F., cit. in Carvalho, J. B. de, «Da História Crónica à História Ciência»,pp. 74.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Quanto ao historicismo, que teve como principais cultores Collingwood, Benedetto, Croce, e Leopold von Ranke, era tido como o conhecimento do espírito e acção do pensamento. Estes historiadores-filósofos eram de opinião que o conhecimento histórico é o conhecimento do que o espírito realizou no passado e, ao mesmo tempo, a reconstituição e perpetuação no presente. O historiador, através do seu pensamento, é que vai reconstituir o passado. Torna-se, então, uma História subjectiva, pois tem algo do pensamento do historiador.
Collingwood diz que o historiador tem que reconstituir o que se passou na mente dos seus personagens; o leitor ao ler, deve reconstituir o que se passou na mente do historiador.
Leopold von Ranke tenta reconstruir o passado e faz uma História essencialmente política.
Eis que, finalmente, me encontro, nesta minha 'viagem' no tempo, naquele momento da historiografia considerado bastante importante, e que, penso, mesmo 'ultrapassado', não se poderá ignorar ao estudarmos História: é o materialismo histórico que, baseado na dialéctica hegeliana, pretendeu elaborar uma teoria científica da História.
Esta concepção materialista da História não deve, talvez, atribuir-se exclusivamente a Marx e Engels. Quando Alexandre Herculano escreve: "os partidos representam os interesses das diversas classes" e quando afirma ser absurdo sujeitar "a ordem dos acontecimentos sociais às mudanças das raças reinantes..." (8), como homem de ciência e historiador, situa-se na linha de evolução e de revolução que conduz a Marx, assim como também a Guizot, que tinha já uma ideia bem clara da importância primeira da História económica e social relativamente à política. Estes historiadores provam que existia um esforço nesse sentido. O próprio Marx escreve em 1852: "não sou eu que tenho o mérito de ter descoberto nem a existência de classes na sociedade moderna, nem a luta entre elas. Muito tempo antes de mim, historiadores burgueses tinham descrito o desenvolvimento histórico desta luta de classes." (9)
Efectivamente Guizot tinha escrito: "antes de se tornarem causa, as instituições são efeitos; a sociedade as produz antes de ser por elas modificada; (...) a sociedade, a sua composição, a maneira de ser dos indivíduos, segundo a sua situação social, as relações das diversas classes de indivíduos...;(...) para conhecer as condições sociais é preciso conhecer a natureza e as relações das propriedades." (10) Eis que Guizot fala em relações de propriedade, Marx viria a falar em relações de produção. E dirá:"não é a consciência do homem que determina a sua existência, mas, pelo contrário, é a sua existência social que determina a sua consciência."(11)Por isso, esta historiografia marxista surge com um carácter inovador em que o homem será o 'motor' dessa mesma História, inserido num contexto social que a determina. Inovadora, também, é a sua nova perspectiva estrutural sob uma visão economicista e materialista.
Os modos de produção das sociedades, como o esclavagismo, o feudalismo, o capitalismo, levaram a que Marx e Engels vissem a História como uma permanente luta de classes. Oprimidos e opressores travavam, através do tempo, lutas que, mesmo desiguais, levavam a uma alteração de estrutura que teria por fim a extinção de 'classes.' Uma sociedade sem classes, ou o comunismo científico, era o objectivo proposto por Marx.
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Notas:
(8) - Carvalho, J. B. de, «Da História Crónica à História Ciência», Herculano, A.,in: «Cartas sobre a História de Portugal», pp.94/97/99.
(9) - Idem pp.103.
(10) - Idem pp. 91, in: «Essais Sur l'Histoire de France», pp.61.
(11) - Idem, pp.107, in «Etudes Philosophiques» de K. Marx e Friederich Engels, Paris, 1968, pp.151.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

"A Nova História" (continuação)

Surgem, então, durante o séc. XIX, quatro correntes históricas: o romantismo, o positivismo, o hitoricismo e o materialismo histórico protagonizadas por historiadores como François Guizot, Alexandre Herculano, Tierry, Mignet, Thiers, Michelet, Auguste Comte, Marx e Engels.
Para Guizot o facto histórico não é apenas o acontecimento. Este dá um realce especial à História económica e social e relega para segundo plano a política, uma vez que considerava as instituições políticas como parte integrante da própria sociedade e esta devia, por isso, ser estudada primeiro, quer no seu particular, quer no geral. Já Guizot via na luta de classes o motor do progresso histórico.
Para Tierry também a História do povo anónimo estava em primeiro lugar: deixou de parte a História política e militar, pois considerava que "o progresso das classes populares era mais importante que toda a História dos reis." (6)
Aqui terei que fazer referência ao nosso historiador Alexandre Herculano, que seguiu Tierry quando se insurge contra a História das classes reinantes. "A biografia dos indivíduos não pode caracterizar a História da sociedade." (7) Considerava que a burguesia estabelecia um traço de união entre o pobre e o nobre. Dava, por isso, importância à classe burguesa da altura, que considerava o motor dessa mesma sociedade. As questões políticas de classe sobrepõem-se, em Alexandre Herculano. Na opinião de Guizot, a historiografia estava em crise e a sua produção era quase nula. Escreviam-se memórias dispersas. Então, estes historiadores que, como Guizot Tierry e Mignet, eram jornalistas e políticos, vão dar importância aos aspectos sociais.
Após esta crise, coube, de facto, a estes historiadores liberais e românticos ampliarem e renovarem o campo da investigação histórica. Impõe-se o carácter científico; quanto ao método e objecto da história alarga-se. O historiador vai dar igual valor aos aspectos políticos e sociais, ideológicos e económicos, por ser o conjunto destes factores que forma a civilização.
Michelet é considerado o percursor da concepção da História total. Considerava-se "iluminado" pelo passado, que olha de uma nova forma. Novos conceitos são estabelecidos para se compreender melhor a alma nacional, uma vez que cada civilização tem características próprias, que só se compreendiam integradas num processo evolutivo, no qual se desse igual importância ao passado e ao futuro. Nesta visão histórica romântica, a cada época corresponde um determinado valor, e consideravam que teria sido na Idade Média onde nasceu a alma de um povo. A estes processos nacionalistas de análise histórica eram aliados métodos intuitivos que lhes permitiam captar a realidade concreta.
Também os românticos possuiam uma visão educativa e integral da História. Contudo, aquilo que Vitor Hugo dizia acerca deste período - "o romantismo é a liberdade na arte" - liberdade essa que se verificava também nas novelas de Balzac e Stendhal, irá conduzir a que a historiografia romântica seja como um "romance" do passado, mas já sem as características da História, crónica e narrativa de batalhas e guerras, dos feitos dos generais, de um grande homem.
Na segunda metade do séc. XIX surge, nesta minha 'viagem' pelo passado e pelas diversas formas de fazer História, uma corrente ou tendência positivista, que vê na História uma ciência exacta. Auguste Comte seu principal impulsionador, defende que seja possível aplicar ao estudo da História as mesmas leis pelas quais se rege a evolução biológica. É possível elaborar leis, ter um objecto e método definidos. O historiador deve, primeiro, determinar os factos e, em segundo lugar, estabelecer as leis.
Mas estas leis eram obtidas através da persepção sensorial e da generalização dos factos através da indução. A História universal é posta de lado, os factos deixam de ser estudados dentro de uma conjuntura. O papel do historiador tornou-se passivo, pois o sociólogo (Auguste Comte fundou a sociologia como uma ciência) é que interpreta os factos, e as próprias leis são estabelecidas através da sociologia. É uma História de curta duração, sincrónica, onde não se estuda a História total, mas sim o acontecimento. Aplicavam os métodos das ciências da natureza à interpretação da História: fora dos textos não havia História pensável. Assim, para os positivistas, fazer História consistia em abstrair do facto os seus conhecimentos, por isso, o historiador não constrói a História mas "redescobre-a". Recorriam a três ciências auxiliares da História: a paleografia, a filologia e a diplomática. faziam uma crítica histórica que se baseava numa crítica interna e externa, de forma a obterem a exactidão do facto histórico. O que acontecia era que só podiam fazer uma História episódica, onde não existia qualquer articulação das rubricas em relação umas às outras. Ficam ao nível dos acontecimentos artificiais, como observadores indirectos, e são a favor de uma História política tradicional(os grandes acontecimentos).

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Notas:
(6) - Carvalho, J.B.de, «Da História Crónica à História Ciência»,pp.89.
(7) - Idem. pp.94/95

"A Nova História" (continuação)

Mas eis que, neste meu deambular através do tempo, logo me encontro no séc. XVIII, em que começam a surgir ideias revolucionárias que enfraquecem as estruturas do antigo regime. Surge, então, a corrente racionalista ou iluminista, que se liga a este evoluir de pensamento político, social e económico. O capitalismo surge como força económica. A Europa é enriquecida pela dominação colonial e o afluxo de capitais. A burguesia mercantil e industrial controla as forças produtivas e passa a deter o aparelho do estado.
Perante semelhantes modificações, o objectivo da História e o seu método ir-se-iam igualmente alterar. O cosmopolitismo, a nova classe dominante, é agora a atracção dos historiadores deste tempo. Evitam o estudo da Idade Média e, apesar de estarem bem informados e serem eruditos, procuram como fontes históricas testemunhas orais, narrativas de viagens, fragmentos de informação. Esta é uma crítica expressa por Georges Lefebvre à história racionalista. Voltaire e Condorcet foram os historiadores talvez mais importantes desta época. Voltaire contrapõe a História da sociedade à História das batalhas, reis e grandes senhores, mas ainda são os grandes homens a resolver os conflitos. Praticaram uma História em que o povo, enquanto massa trabalhadora e produtora de riqueza, é posta à margem. Enquanto História civilizacional, são analisados os factores económicos, sociais e culturais que fazem evoluir a História.
Será, porém, nos finais do séc. XVIII que vamos encontrar uma reacção a esta forma de fazer História. Porque, mesmo que Voltaire e Condorcet tivessem contribuído para alargar os horizontes da História, ao alertarem para a necessidade de se não esquecer "a massa das famílias" Voltaire acreditava que devia ser um "déspota" esclarecido a conduzir os destinos dos povos. Ao contrário, Rousseau propõe a necessidade de se formar um povo esclarecido, o que implicava cortar com o pensamento elitista. Para que se desse esse esclarecimento, havia a necessidade de o investigador estudar o passado, dedicar-se ao conhecimento de épocas diferentes da sua e verificar a sua evolução. Vivia-se, então, o período romântico que implicou todo um movimento cultural, artístico e intelectual.

(continuação)