sábado, 17 de março de 2012

Sobre a Leitura

Para "Conclusões/incitações" diz-nos J.A.Mourão que um dos grandes e maravilhosos caracteres dos belos livros é que para o autor eles poderiam chamar-se conclusões e para o leitor incitações. Porque a escrita comporta uma performativa específica, o "Vem!", do Apocalipse de S. João que define para Derrida a "cena da escrita em geral." (...) Nos textos 'literários' a fronteira entre o objecto e o sujeito praticamente se anula (...) o texto faz-me falar: desperta em mim o que não poderia dizer de mim, sem ele. (...) O leitor é convocado pela consistência do texto que lê, pela 'letra', antes de mais (...) resistindo o texto a uma qualquer exaustão de sentido. (...) - A  leitura pode fazer advir o sujeito - leitor, que não é somente definido em relação à 'mensagem' (...) mas é também referido ao que no discurso é dito. (...) O texto faz o que diz: fecha-se, abrindo-se, como um espaço construído pelo desejo do outro, como provocação a dizer a verdade do sujeito que somos no espaço-tempo da nossa  enunciação.
Assim finaliza a introdução, J.A. Mourão, à qual aderi  e das suas próprias palavras parti para a construção desta síntese, que nos dá o seu próprio questionar sobre a posição de Proust, e das suas implicações no debate actual sobre a leitura.
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sexta-feira, 16 de março de 2012

Sobre a Leitura (continuação)

"Na perspectiva de Proust, o escritor tem apenas que fornecer a possibilidade de interpretação, fornecendo o artifício da hipótese. O que o autor pode dar são desejos, dizia. (...) Dar equivale aqui a despertar. (...) Cada leitor é, quando lê, o próprio leitor de si mesmo.
Proust fala de "exercício de transposição mental, (...) transposição ou tradução, a leitura ocupa a posição modal do adjuvante, em termos de pode-fazer, não é a do sujeito operador em busca da unidade do Eu. 
O voto de Proust é claro: conciliar a vida e a leitura, porque no livro interior a cada um de nós, o autor, o "leitor e o livro fundem-se. O único livro verdadeiro existe já em cada um de nós: há apenas que traduzi-lo". (pp.12/13)
(...) A descrição psicológica que Proust dá da incitação aproxima-a das concepções teológicas da inspiração sagrada, vista como impetus, a impulsão que lança a escrita sem se substituir à actividade pessoal do autor. A leitura dá à vida uma espécie de exercício propiciatório ou de incitação à escrita como antídoto contra a passividade. 
Em "A Letra e o Corpo" J.A. Mourão diz que "se a leitura é um exercício do desejo, é porque o texto é, antes de mais, um espaço ordenado pelo desejo. Há um jogo recíproco entre os dois termos, que constrói a escrita: um imaginário e uma erótica do "querer". Ao leitor cabe apropriar-se deste "esquematismo" e desta erótica. Mas o leitor responde ao texto, não a alguém (...) o texto é mudo (...) incapaz de nos transportar, de nos mover fora dele."
"Derrida denunciará (...) a metafísica da presença e a falsa identidade do que se nos apresenta contido ainda na fenomenologia husserliana. (...) A leitura está no limiar da vida; como propagação de uma pregnância (...) luz saída da fonte luminosa  que a letra, o corpo e o sujeito constituem. (...)
Proust comenta-se a si próprio quando olha para o jornal que traz um seu artigo: "não era apenas o que eu tinha escrito, era o símbolo da sua encarnação em tantos espíritos... "o jornal chega como um corpo" junto ao café com leite e os croissants, "o pão espiritual, que é o jornal, ainda quente e húmido da imprensa recente e do nevoeiro da manhã. (...) E a escrita quente e húmida como os 'croissants' come-se: É a palavra substância do autor - que se torna, segundo Ezequiel - 'Pão miracoloso, multiplicável, que é simultâneamente, um e dez mil e continua a ser o mesmo para cada um. (...) A imagem evangélica vem ainda ao espírito quando Proust manda buscar mais exemplares para 'tocar com o dedo o milagre da multiplicação do seu pensamento'.
Que promete o escrito? Um encontro tão corporal como a partilha do pão. "Proust sabia (...) que esta plenitude não se cumpre e que o seu pensamento não estava contido na letra (...) - a letra é um continente que não contém nada.

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quinta-feira, 15 de março de 2012

Sobre a Leitura (continuação)

Em "O Proveito da Leitura" conclui-se  que: a utilidade da leitura é o que Ruskin trata no Trésor des Rois. "Nesse tempo em que a leitura era o grão de sésamo, o pão para o espírito e o remédio contra a ignorância dos povos; o tesouro escondido da educação social. (...) A escrita, a letra e o corpo comunicavam entre si numa fraterna conivência. (...) Depois, a literatura despragmatizou-se com a chegada do modernismo, que foi (...) uma aventura do significante. (...) À conversação sucedeu a leitura como solidão. Conforme o modelo da escrita modernista, a ética da literatura corresponde agora à descoberta da verdade em si mesmo, como uma recriação por si mesmo, arruinado que está o modelo da verdade a que se ia antes, tornando-se o livro significante do outro, mais do que enunciado dum significado.
(...) O essencial da questão da leitura em Proust,- diz-nos -, passa pelo impasse lansoniano - o "exigir da arte uma finalidade social e democrátrica", que o herói narrador, Bloch, numa passagem de La Recherche du Temps Perdu, expressa: "desde há muito que os poetas nos contavam os seus pequenos amores, lassidões, tristezas, era tempo de exprimir a alma do povo, as grandes realidades sociais, o pensamento que anima o povo na altura das greves."
Conclui então que "em Proust o anti-lansonismo é tão evidente como o seu anti Saint-Beuve. Mas o que mais se esboça nele é uma definição quase fenomenológica da escrita e da leitura (da sua relação), em que a separação entre o leitor e a escrita é abolida: a leitura é a escrita, a escrita é a leitura. (...) A obra abre-se na interface em que o autor se anula e em que a leitura se origina. Um tal ponto de vista arrasta a destruição do corte tradicional (na base de arrazoados pseudo-democráticos) entre subjectividade e objectividade, e queda da acusação do egotismo. Que pede Poust aos leitores? "Olhai vós...vêdes melhor" (...) Leva-nos a considerar a actividade da leitura como intencionalidade. A verdadeira "democracia literária" deverá residir (se a há) na extraordinária e complexa abertura do eu proustiano como acesso autêntico à presença."
A leitura é por ele reconhecida "como uma paixão, e o amor dos livros é comparável a um qualquer outro amor. (...) Presa do imaginário, a leitura também está sujeita a decepções. (...) Os livros são comparáveis a seres vivos, a pessoas amadas, permanecendo ligadas às circunstâncias do encontro e às emoções que suscitaram. (...) O livro é como um vestido impregnado de sensualidade e emoção, de tal modo que o narrador fala dele como de um ser animado e carnal: "Qualquer paixão veicula uma espécie de gosto pelos seus contornos e os apaixonados do pensamento sentem prazer nos livros (...) como os apaixonados pela mulher nos seus véus... A ingenuidade estará em confundir a arte e a vida ou em tomar a arte pela vida". (...)
A paixão pela leitura poderá levar a duas espécies de perversões: a do erudito e a do letrado.
O primeiro procura a verdade em toda a parte menos em si, e crê dispor dela como uma coisa material, depositada entre as folhas dos livros... O segundo afecta um "respeito fetichista" pelos livros, mas de facto, lê por ler para "reter o que leu" e não para neles descobrir a verdade  ou a recrear: para ele o livro é "um ídolo imóvel".
Esta é uma verdadeira "doença literária" que atinge praticamente todos os escritores, como reconhece Proust, (...) que os leva a preferir o passado ao presente, a morte à vida e sobretudo a confundir os valores estéticos com os valores morais. Esta é uma leitura má. Mas há uma leitura salutar: "a iniciadora, cujas chaves mágicas nos abrem no fundo de nós mesmos a porta das moradas onde não teríamos sabido penetrar." Esta é a "leitura como decifração", que compete ao leitor, pois o acontecimento literário não é - a semiótica o lembra - um objectivo fixo. A interpretação não é nunca dada, constroi-se, dado que implica o sujeito que se enuncia no texto, o leitor. (...) Ler consiste em provocar relações, um texto dentro do texto, um intertexto - é do entrelaçamento da letra e do corpo que o discurso se torna génese.

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(continua)

SOBRE A LEITURA

PROUST, Marcel, Sobre a Leitura, trabalho realizado para a cadeira: Teoria da Literatura, 4º ano da Faculdade.

Leio e estou liberto...
Deixei de ser eu e disperso...
Leio como quem abdica.
Leio como quem passa.
E é nos clássicos, nos calmos,
nos que, se sofrem, o não dizem, 
que me sinto sagrado transeunte...
Bernardo Soares

RECENSÃO

O livro Sobre a Leitura de Marcel Proust é-nos apresentado e traduzido por José Augusto Mourão.
No seu Prefácio, do Prefácio, coloca os leitores perante aquilo que viu em Proust, e nas suas Journées de Lecture.
Seguem-se as Notas ao mesmo, nas quais agradece a Maria Leonor Teles pela leitura crítica que fez desta tradução, e nos dá conta da versão em que a mesma se baseia. Indica bibliografia das citações, assim como chama a atenção para a consulta de algumas passagens de livros (7, 9, 10 e 17). Findas estas inicia-se o Texto pela voz de Proust.
O próprio título vem já acompanhado de um nota na qual o autor dá conta ao leitor de que "neste prefácio tentou reflectir sobre o mesmo assunto que Ruskin no Tesouro dos Reis: a utilidade da leitura. É que ao expor as suas ideias já está involuntariamente a opô-las às dele, constituindo por isso uma espécie de crítica indirecta da sua doutrina".
Pela importância das notas com que o livro se inicia e se conclui, falarei de algumas que se me afiguram dignas de registo.
Começo por fazer um resumo das próprias palavras de J.A. Mourão, em que incluí as de Proust para relevar aquilo que me foi dado ver como leitora.
Verifiquei que ao longo da Introdução o apresentador dá títulos às suas considerações sobre a obra. Mante-los-ei porque eles se adaptam à teia do próprio resumo.
Assim, diz-nos J.A. Mourão que Sobre a Leitura é um prefácio de Proust à sua tradução de Sésame et les Lys, de John Ruskin. Nele analisa a sua própria experiência da leitura, entregando-se a comentários à conferência sobre a leitura que Ruskin fez em prol da criação duma biblioteca no Intituto de Rusholme, em 6 de Dezembro de 1864.
Este texto seria para alguns o "contra Ruskin" de Proust, tal como o "contra Saint-Beuve" seria o esboço da escrita da Recherche du Temps Perdu. O autor constata também "que Proust foi um fiel de Ruskin, pelo menos no seu lado "místico", e que este ensaio supõe a leitura do apóstolo inglês do cristianismo social, mesmo se o "apostolado" do escritor francês é "solitário" e "anti-utilitário". refere ainda que "a obra de Proust se presta admiravelmente para um estudo dos problemas da leitura."    
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(continua)

Pestana "O Grande"

Acaso estará certa a comparação que estes entrevistadores fizeram da "procura da angolanidade" com a procura de 'pátria' (Heimat)", que surge na obra de Ernest Bloch, e que terá vindo como que "remodelar o marxismo, dizendo que se atinge a utopia vivendo-a no dia-a-dia, fazendo dela mais um meio do que um fim?" Está patente, na sua obra, a liberdade como uma conquista que se vive dia-a-dia? Esta é a longa questão que lhe propõem, à qual o escritor responde que, efectivamente, assim é. Quer na obra, quer na vida, esse é o caminho. Porque a liberdade, para que exista, é necessário criá-la e fazer dela uma conquista permanente.
Angolanidade e liberdade "são realidades que estão ligadas" sinonimamente na sua obra. Essa procura da utopia mantém-se, mesmo sabendo que, possivelmente, nem metade dela se realiza. O real é "mais forte". No entanto, as pessoas idealizam um programa que lhes permite passar à acção, mesmo que, no fim, não se atinja a realização plena. "No caso da revolução", o sonho e a acção diferem e "não é possível atingir o que se havia programado."
Perante esta forma de ver, os entrevistadores perguntam: "então como interpretar a morte de Sem Medo, o personagem de Mayombe? Essa é uma questão que sempre lhe põem, diz. Mas simplesmente responde que ele teria que morrer, porque era uma personagem que só podia viver "numa situação de luta". Não inicia o livro, mas, a dada altura, como que se impõe à acção e ele a conduz. Teria que ser morto. Pedia isso.
Surge, então, aquele que é o seu mais recente romance. Acaso é uma biografia? Yaka, como uma saga familiar, terá origem na sua própria família? Um ou outro elemento da família é integrado no livro, mas não é directamente uma autobiografia, se bem que Yaka a represente também, uma vez que os familiares maternos fundaram a cidade de Moçâmedes. O seu pai teria ido, a certa altura para Benguela... Essa será uma ligação. Yaka representa, isso sim, as famílias antigas, aqueles "colonos que foram para Angola no século passado, que  se integraram na sociedade" e, após 1975, se dividiram, com a independência. Ultrapassa, por isso, um pouco a realidade da família.
Porque se passa "a acção do romance à volta de uma estátua?" A esta questão responde o escritor que a introdução dá uma pista. Uma espécie de formação guerreira, que juntava bayakas, javas e imbangalas, terá percorrido Angola, umas vezes a "mando do rei do Congo", outras formando chefias no planalto central. Por isso, talvez deixassem uma organização social e política, que seria comum às diversas etnias de Angola. Ora, culturalmente, expressavam-se através de uma estatuária própria e "representativa", que também se terá espalhado pela sociedade, tornando-se símbolo de unidade nacional (agrupando as diversas etnias). Essa estatuária era utilizada como forma de ironizar o colonizador. Por isso, recair a escolha nesse símbolo, que obtém a oralidade no final do romance, quando se pôs fim à colonização. Consciência muda do personagem Alexandre Semedo.
A propósito de outras simbologias, noutras obras em que surgem animais, como o cão e a toninha, ou flores, como a buganvília, o escritor diz que, por vezes deixa em aberto para que os leitores decidam. O cão poderá, porém, ser a consciência do povo. "A toninha é a utopia"; a buganvília uma certa burguesia nascente? "è isso," responde. Faz notar que a cultura tradicional angolana é, por natureza, imbuída de máscaras e estátuas, que representam a própria força dos animais, da natureza. Surgem no Luegi, porque a intenção foi recolher na tradição "as pedras fundamentais da angolanidade". 
Colocam-lhe, ainda, a questão de trabalhar com mistura de tempos no tempo. Será uma forma estilística? Ou uma forma de se ilibar de crítica à situação política de Angola? Não. Essa forma de trabalhar já vem desde Muana Puó. É uma sua constante. Mesmo em termos políticos, aí estão as ideias programadas que depois irá paulatinamente desenvolver.
E a propósito da actual literatura? Qual é o seu pensamento? É diferente. Os novos escritores não viveram a situação colonial, nem a de libertação: escrevem sob novas preocupações, que são as suas. É bom. Porque torna a escrita diversa. Existe uma preocupação de uma procura estética. O que "não quer dizer" que esses escritores não venham a trilhar caminhos na linha destes primeiros, mas sempre já a "outro nível".
Quais as influências na sua obra? De escritores africanos, francófonos e anglófonos? Eis a última questão. A que o escritor responde que as influências de escritores africanos não existiam porque, até há pouco tempo, não os conheciam. Somente os das colónias portuguesas, do Brasil e Portugal:  José Lins dp Rego, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Jorge Amado, etc. Estes escritores conheceram-nos ainda primeiro que os modernos portugueses, pois "nos anos 57 e 58 chagavam a Angola, normalmente." Através destes, chegavam aos norte americanos, como Steinbeck, John dos Passos, Hemingway, "este sobretudo nos diálogos". E é dos escritores que mais admira. Considerando que "até a sua morte foi exemplar."
Então será uma experiência idêntica à dos homens que protagonizaram Claridade e Certeza, de Cabo Verde, que tal como Teixeira de Sousa se considerou influenciado pelos modernistas brasileiros? Desconhecia, responde Pepetela. E confessa que conhece há pouco tempo este escritor, a quem ainda não teve a oportunidade de falar.
Àcerca de uma possível influência de Camus, responde que não. Talvez de Roger Vailland. "Sobretudo no Mayombe." "Talvez Sem Medo tenha alguma coisa do conquistador de Vailland."
Propositadamente deixo para o fim a constatação de que os entrevistadores não conhecem "nas literaturas anglófona e francófona uma experiência igual "à de Pepetela. A que o escritor responde que se viveu "situações diferentes". E que considera haver uma literatura interna à própria Angola, que vem já do "século passado". E constata que a colonização de Angola foi diferente de qualquer outro país africano. Isso reflete-se, também, na língua. E dá Luandino como exemplo. O seu trabalho, diferente no que se refere à língua portuguesa, não encontra paralelo no francês ou inglês.
Acaso são os textos do escritor "entendidos" pelos "potenciais leitores"? Sim. Pela experiência que tem das reuniões "organizadas pela União de Escritores Angolanos" e pelas perguntas que são formuladas, pensa que sim. Se assim não fosse tinha "desconseguido". 
Como conclusão, acrescentarei eu própria  que, efectivamente, Pepetela - Pestana, "O grande" - conseguiu. Ele é um "construtor da angolanidade."
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JL, Jornal de Letras Artes e Ideias, pp. 6 e 7, de 2/10/1990.


Lisboa, Maio de 1991.

quarta-feira, 14 de março de 2012

PESTANA " O Grande"

"Pepetela, um construtor da angolanidade". Este é o título que Margret Ammann e José Carlos Venâncio escolheram para a entrevista que fazem a este escritor. Comecemos por ele.
Pepetela é um nome umbundo que, traduzido para português, ficaria em "Pestana Grande". Ora, o nome verdadeiro deste "construtor da angolanidade" é Artur Carlos Pestana. Assim, ao seu último nome acrescentou "Grande". Eu  diria Pestana, "O Grande". Angolano que se quiz "construtor". Por isso, começou por "construir" um nome para si próprio. E um nome umbundo. Pepetela.
A sua matéria prima são as palavras; os tijolos poderão ser as vogais da língua portuguesa, às quais junta as consoantes, traço de caneta a traço de caneta, para unir sem frinchas os tijolos, e levantar bem alto a "angolanidade". Ele é um "construtor" para Angola, talvez como o foram para Portugal alguns escritores de 1800. E assume que escrever é, para si, uma forma de estar no mundo, uma catapulta para a acção. Essa acção está provada na sua incansável carreira de "construtor" de uma Angola "Nova", com raízes míticas que se perdem no tempo.
É desse tempo ancestral que Pepetela vai em busca. E longa e paciente tem sido a caminhada. Senão vejamos: Em destaque, e iniciando, dão-nos os entrevistadores os romances: Mayombe (Lx.,1980),  Yaka (Lix.,1985)  O Cão e os Caluandas  (Lix.,1985), para, logo após, referirem o seu mais recente livro,  Luegi (Lx., 1990).
O "seu discurso romanesco", com a criatividade que lhe é própria, tornou-o no "mais significativo dos escritores angolanos". E significativo porquê? Porque constrói todo o trama narrativo na procura da própria angolanidade. Para que assim seja, aplica ao seu estilo formal um "plano histórico, real" que se tornam como que homólogos no romance. Porque o fará? Essa a principal interrogação destes dois especialistas.
É que os seus temas estão como que imbuídos de "uma ligação" ao desenvolvimento real" da sua "sociedade". Há na sua obra como que uma osmose, que pretende atingir do múltiplo o uno. Acaso o escritor sente a carga simbólica que sobressai da sua forma de escrever? Sim. É a pronta resposta. Inicialmente talvez não o estivesse, mas hoje aceita que assim é. De facto diz: "Nós estamos num país que se está a formar, que é muito diverso, e eu penso que a cultura tem que dar contas dessa diversidade, embora procurando uma certa unidade. Unidade da nação, que se está a criar."
Para a formação dessa cultura contribuiu com bastantes obras. Essas são recordadas neste encontro. Quais foram as primeiras a iniciar essa vida literária? Contos, Talvez dois "publicados na Casa dos Estudantes do Império";  outro "numa revista de Porto Alegre (Brasil), e ainda um numa revista belga"(do qual a memória já se esvanece.). Porém, são, tal como o conto As cinco vidas de Teresa, desse princípio da década de 1960, este último publicado na antologia Novos Contos d' África (Sá da Bandeira, 1962).
Neste período da Casa dos Estudantes ligou-se à geração de 50, da qual faziam parte Agostinho Neto, Viriato da Cruz e, mais tarde, Luandino Vieira. Eram tempos de Lisboa. De estudantes. A estes contos seguir-se-á a publicação de Muana puó,  Mayombe, As aventuras de Ngunga, A Revolta da Casa  dos Ídolos, etc.
Todos estes livros virão na sequência da procura do conceito de angolanidade? Esta é a minha interrogação. Porque os "especialistas" que entrevistam o escritor perguntam-lhe se este conceito, falado por quem está de fora do processo angolano, tem uma relevância especial para si. Naturalmente que sim. Apesar da sua abstracção. O que é? Alguém sabe o que é a angolanidade? Ainda, até hoje , não foi possível teorizar, definir. "Embora esteja patente na obra dos escritores angolanos". Durante muito tempo, ainda, irá prosseguir a busca.

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(continua)

Revista Seara Nova /JL

Foi na Revista Seara Nova nº 1546, de Agosto de 1974, que veio publicado este artigo a que chamei "A Libertação de Angola",  mas cujo título original  é Alguns aspectos actuais da luta de Libertação Nacional. Está colmatada a falha bibliográfica. Se repararem nas datas verificarão que quando Agostinho Neto deu esta conferência ainda não se tinha vivido o 25 de Abril de 1974, mas quando veio publicada na Seara Nova, já se viviam tempos novos e inesquecíveis. É bom recordar as palavras deste líder e os tempos de Esperança e de alegria que havia no nosso quotidiano.
Para o próximo trabalho, Pestana "O Grande", que vou transcrever e que foi realizado, igualmente, para a cadeira de Literatura Africana , trabalhei com o Jornal JL,  nº 15, de 15 a 28 de Setembro de 1981; com o nº 21, de 8 a 21 de Dezembro de 1981; e com o nº 430 de 2 de Outubro de 1990. Sempre fiel aos jornais e às revistas de qualidade, eis que faço deles matéria do meu trabalho. Aqui fica a informação de ontem e de hoje, antecipadamente.
Até já!