sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Cartas Familiares de Cavaleiro de Oliveira

Carta 9

A' Senhora condeça de Roccaberti, sobre a Deshonra, e sobre a Calumnia.

"A Deshonra a que podemos chamar verdadeyra he a que consiste no interior do homem, formando-se do crime que nos separa da origem da honra que he de Deos, fóra do qual não há mais que Deshonra, e que Miseria. A Deshonra porem em que V. E. me falou he a que consiste no exterior de huma pessoa, e que se origina da opinião das outras. Estas duas qualidades de Deshonra ordinariamente não andam juntas, porque muitos homens indignos, e por consequencia infames diante de Deos são louvados, e honrados no mundo pelas suas más obras, ao mesmo tempo que outros que são bons, e favorecidos do Amor de Deos são calumniados, e aborrecidos no mundo pelas suas acçoens excellentes. A tal ponto de capricho, e de injustiça chega o juizo dos homens. Sabendo eu muito bem que a reputação, e o louvor que os homens dão não he mais do que o vento, persuado-me a julgar que as calumnias de que elles nos carregão são da mesma naturesa. (...)
He bem verdade que muitas vezes a Calumnia se introduz fortemente na pessoa calumniada com tanta vehemencia que a mata, porem não he a Calumnia que faz a chaga, he a imaginação do calumniado a que se fere, e a que fazendo depender a sua felicidade da opinião dos outros, causa a si mesmo o mal que outra nenhuma pessoa lhe podia fazer. (...)
O Sábio despresará não somente este mal imaginario, porem o mesmo remedio, e quando os seus amigos o vieram consolar a respeito do mal que todos dizem delle, creyo que lhes dirá que vão applicar o remedio onde o mal se acha, que será o mesmo que diser-lhe que se acha na malignidade das pessoas que o caluniarão, e na temeridade dos juisos que as crerão. (...)
Exaqui como se havia de considerar a Calumnia nela mesma, (...) não deve o calumniado despresar os meyos que se lhe oferecem de desengana-los, e de satisfase-los; entendendo sempre que o conseguirá muito melhor pelo caminho de uma integridade constante, e tranquilla, que por vias estrondosas... (...) A innocencia, e a confiança que a acompanha devem conservar-se em tal forma superiores aos ruidos populares, que não se movão mais a estes, do que as Estrellas se movem aos ventos que se formam na Região mais inferior do ar. (...)
He preciso que cada hum se incline ao bem por odio do mesmo vicio, e não por medo da deshonra, a qual não he mais do que huma sombra que desaparece infalivelmente aos rayos da virtude.
Exaqui, Senhora, o que entendo seriosamente da Deshonra, e da Calumnia..."

Vienna de Austria, 2 de Dezembro de 1736
(Carta LI, Tomo II, pp.584/88) 
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A desonra verdadeira é a que consiste no interior do homem, e se a calúnia pode matar de dor, a integridade constante e tranquila põe a descoberto a verdade, tarde ou cedo. A inocência e a confiança devem ser superiores às vozes populares, porque os raios da Virtude fazem desaparecer todas as sombras. Devemos, ao ouvir a malignidade, não deixar que a imaginação possa ferir irremediavelmente a nossa alma. É o conselho de um homem das "luzes" com o qual aprendemos ainda hoje.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Cartas Familiares de Cavaleiro de Oliveira

Carta 8

A' Excellentissima Senhora Condeça de Roccaberti, com a Historia de Zoroastro.
(...)
"Suponho que viajando Cyro Rey de Persia, em companhia da Princesa Cassandane sua esposa, chegarão á Escola dos Magos em que presidia Zoroastro. (...)
Zoroastro os diverte informando-os da vida, dos costumes, e da virtude dos Magos. No tempo em que discorre volta muitas veses os olhos sobre a estatua, e não póde disfarçar sem grande dificuldade as suas lagrimas. Observa Cyro, e Cassandane, pergunta-lhe a Princesa a sua origem, e responde Zoroastro com estes termos. Esta he, diz elle, a estatua de Selima, que me amou com tanto affecto como vós amaes o vosso esposo. Este he o lugar onde me tenho costumado a passar os momentos mais doces, e os amargos. Apesar da Sabedoria que me sugeita á vontade dos Deoses, apesar dos encantos que a  Philosophia me faz gostar (...) a lembrança de Selima me obriga quasi sempre a suspiros, e a lagrimas."

Começa o filósofo a contar-lhes a história do seu amor por Selima que era Vestal Indiana, sacerdotisa do Fogo. Para conseguir ficar junto dela e entrar no Templo, disfarça-se de mulher e torna-se sua amiga. Até que um dia foram à montanha e Selima foi raptada, juntamente com seu pai, por homens armados. Ele foge atrás deles mas perde-lhes o rasto. Não volta ao templo nem ao seu reino, e procura-a sem desânimo. Vai encontrá-la como rainha dos povos da Lycia e põe-se ao seu serviço. Luta com os exércitos contra os inimigos de Selima e vence batalhas. O amor, impossível entre ambos, devido à sua condição de estrangeiro, acaba por ultrapassar todas as dificuldades e finalmente casam. Selima morre pouco depois. Após o que ele se sente iluminado pela sabedoria e conclui que:

"A virtude he muitas veses desgraçada, e isso he o que offende os homens cegos, os quais ignorão que os males passageyros desta vida são destinados pelos Deoses, para purgar as culpas secretas daquelles que parecem os mais virtuosos. Semelhantes reflexões me determinárão a consagrar o resto dos meus dias ao estudo da sabedoria."

(Volta novamente para a Índia e vive entre os Braemenes, mas o seu irmão, que pensa que ele lhe vai tirar o trono, expulsa-o.)

"Este desterro foi para mim huma nova origem de fortuna. De nós mesmos he que depende fasermos uteis as nossas desgraças. Comecey a visitar os Sabios da Asia, pratiquey os Philosophos de diferentes Paises, aprendi as suas leys, e a sua Religião. Achey com gosto, e satisfação inexplicavel que os homens de todos os seculos, e de todos os Paises julgavam quasi o mesmo sobre a Divindade, e sobre a Moral.
Esta he Excellentissima senhora, a historia de Zoroastro. Sey que he verdadeyra invenção (...) Permita V. E. que eu invente modos de honrar." ...
Vienna de Austria, 26 de Fevereyro de 1737
(Carta XIII, Tomo II, pp. 62/3, 78/9, 80)
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Esta Carta é um conto de encantamento, no qual ressoa, talvez, a vida do próprio autor. A impossibilidade de um puro Amor que não esteja ligado à tragédia, à morte; a inveja humana que perpassa na atitude do irmão que não protege outro irmão e o expulsa da sua terra. A constatação de que a virtude é muitas vezes desgraçada. Estas reflexões filosóficas levam Zoroastro a dedicar o resto da sua vida ao estudo da sabedoria. A fazer do desterro fonte de temperança de sorte e alegria e a descobrir que os homens de todos os séculos pensaram quase o mesmo sobre o divino e a moral. (Ideias que Voltaire também defendeu) Por fim, o autor pede ao destinatário que lhe permita modos de honrar-se ao inventar este conto. A literatura como honra e dignidade para o escritor.

Cartas Familiares de Cavaleiro de Oliveira

Carta 7

Ao Reverendissimo Padre D. Joseph Augusto, Clerigo Regular da Divina Providência, e Conselheyro de consciencia do Emperador Carlos VI a respeito da Modestia, e da Audacia.

(...)
Audentes fortuna juvat. Se eu não soubesse que este lugar é de Virgilio, diria certamente a V.M. que era Evangelho. (...)
No tempo em que eu era rapaz (...) imaginava-se que a Modestia era uma qualidade perfeita, e uma virtude recommendavel. (...) Para me formarem o coração, e o spirito me ensinavão as sciencias mais difficultosas, obrigando-me a distinguir as cousas, e a fazer juisos sobre ellas. (...) A Modestia desterrada das Cortes não acha mais protecção que a de hum pequeno numero de pessoas. (...)
Creyo que é evidente (...) que a Audacia he huma virtude muy propria para condusir á Fortuna. (...) A Audacia faz ruido. (...)
O homem Modesto, por muito merecimento que tenha, parece-se a hum diamante bruto, cujo valor é conhecido de poucos...
Vienna de Austria, 29 de Agosto de 1737
(Carta LXV, Tomo II, pp.355, 360/61)
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A sorte protege os audazes, mas o autor defende a modéstia como qualidade que deixou de ser estimada. Refere os tempos antigos em que era ensinada, e lamenta que esteja arredada da Corte. Numa comparação exímia diz-nos que o homem modesto é como um diamante em gema, conhecido de poucos.


quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Cartas Familiares de Cavaleiro de Oliveira

Carta 6

A' Mademoiselle de M. a respeito do Amor do Proximo
(...)
"Diz Simplício, Idolatra (...) que todo o homem honrado deve fazer bem a todo o mundo. Ensina Marco Antonino que a naturesa humana pretende de nós que tenhamos cuidado de todos os homens. (...) Diz Quintiliasno na Declam. V, que nós assistamos huns aos outros, e que por estes mutuos socorros cuide cada hum em aliviar ao proximo na desgraça que teme em si mesmo. (:::) Na miseria alheya cada hum se compadece de si mesmo. «Homo Qui in homini calamitoso est misericors meminit sui.» (...)
Pelo que respeita ao Amor do Proximo, estay certa em que todas as seytas dos Philosophos se unirão sobre este artigo. (...) Acabarey disendo que o Divino ou o Diabolico Platão, meteo entre as principais perfeiçoens a de amar o Proximo, e esta opinião lhe era commua com todos os Philosophos Ambulantes e Peripatheticos."

Vienna de Austria 30 de Abril de 1737
(Carta XXXIV, Tomo II, pp. 183/4/5/6)
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Recorre aos exemplos dos escritos de diversos autores clássicos para fundamentar as suas ideias sobre o bem que devemos ao próximo. Todos os filósofos foram unânimes quanto a esta questão. Apesar de classificar Platão de "Diabólico", reconhece que ele mesmo o defendeu entre as principais perfeições.

terça-feira, 28 de agosto de 2012

Cartas Familiares de Cavaleiro de Oliveira

Carta 5

A Monsieur de M. sobre a Pedra Philosophal

(Carta em que o autor dá, em cerca de vinte páginas, imensos exemplos de alquimia baseando-se em muitos autores e referindo-se, ironicamente, a um Milorde, cuja fortuna não poderia explicar-se se não existisse a Pedra Filosofal.)
(...)
"Não he minha tenção persuadir-vos a que existe no mundo a Pedra Philosophal, porem á vista dos sucessos que contem a minha carta, provados, e aprovados na presença de tantas pessoas dignas, referidos, e confirmados por tantos autores famosos; (...) da onde he que vem tanto ouro... (...)
Os meus discursos são livres, e tenho julgado nos de todos a mesma liberdade. O que vos posso segurar he que se defendo a existencia da Pedra Philosophal que a não possuo, e ainda que credes a minha palavra, eu a afirmo tambem nesta occasião com juramento."

Vienna de Austria, 15 de Fevereyro, de 1738
(Carta VIII, Tomo III, pp.40, 58, 59)
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Note-se a defesa de que os seus discursos são livres e de como respeita nos dos outros a mesma liberdade. Esta livre expressão que advoga na escrita, só lhe foi possível porque viveu numa sociedade de livre pensamento.

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Cartas Familiares de Cavaleiro de Oliveira

Carta 4

A Mademoiselle de M. sobre o poder do Ouro, com a explicação da Fabula de Jupiter, e Danae
(...)
"Disse hontem que o Grande Jupiter, pay dos Deoses, e dos homens, na achára encantos mais poderosos, nem feitiços mais singulares que o de transformar-se em chuva de Ouro, para poder conseguir o amor da bella Danae. (...)
Tudo o que ouvistes he ficção. (...) Ovidio e outros Poetas do seu tempo se derão ao officio de fabrica-las. Seguirão-se muitos que os imitarão (...) Porem depois da morte de Esopo, que foi admiravel nesta materia, se perdeo a raça verdadeyra dos homens fingidores. (...) Vive ainda hum verdadeyro fingidor, cujas obras judiciosas serião justamente imuladas do mesmo Ovidio. Fallo do illustre Fontaine, de que não há por ora outro exemplo."
Conta em seguida a história de Dánae que não correspondia ao amor de Júpiter devido a ser muito virtuosa; "alem disso estava sem liberdade, encerrada por ordem de Acrisio e guardada pelos seus criados." Jupiter terá feito chover moedas de ouro pelos criados de Dánae e estes facilitaram a sua posse.
"O ouro tem provado (...) a sua força. (...) Lá em tempos passados, se abrirão as portas do Inferno a hum ramo de ouro, que abrandou as feras, e diabollicas Divindades daquella horrenda habitação. (...)
Hum pomo de ouro poz toda a Corte Celeste em rumor, fazendo de tres Deosas que vivião, antecedentemente, em boa intelligencia, tres inimigas irreconciliaveis. Outro pomo de ouro occasionou a fatalidade de se render Athante a Hipomene. (...)
Quantos assim que virão o Bezerrinho de ouro o adorárão? De todo o Povo de Israel somente a Moisés e Josué exceptua o Texto Sagrado. Quando se erigio em Babilonnia a Statua de ouro do soberbo Nabuco, só tres ou quatro pessoas, diz Daniel, ficarão em pé, sendo certo que a multidão se postrou. (...)
Os sábios o desprezarão, e Cicero o fazia quando considerava que Mercadores, e outras gentes de nada, erão mais ricos que os Scipioens e que os Delios. Por essa Razão querendo Cayo Cesar tentar, ou premiar ao seu modo a Philosophia de Demetrio, lhe ofereceo duzentos Talentos de regalo, porem rindo-se o Estoico do seu nescio pensamento o desprezou. (...)
O poder do ouro vence tudo, porem não vence a todos. Não he necessario ser sabio, basta que seja o homem honrado para resestir-lhe."

Vienna de Austria, 10 de Março de 1736

(Carta XI, Tomo I, pp. 163/4/5/6/7/8) 
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Com o exemplo da Fábula de Júpiter e de Danae o autor reforça a sua ideia como o poder do ouro abre todas as portas, até as do inferno. Narra várias histórias de deuses pagãos aliadas a outras bíblicas e à história de Roma. Os sábios, a exemplo de Cícero, desprezaram-no, e quando Caio César quis premiar o filósofo Demétrio, este estóico recusou, e riu-se do seu "nescio" pensamento. Elogia os escritores de Fábulas e menciona Fontaine como seu contemporâneo, "um verdadeiro fingidor." Conclui que se o ouro vence tudo não vence a todos. para lhe resistir basta que se seja honesto, não é necessário ser-se sábio.

domingo, 26 de agosto de 2012

Cartas Familiares de Cavaleiro de Oliveira

Carta 3

Ao Senhor Barão de Hollembourg, a respeito das riquesas.
(...)
"O corpo he unido ao spirito, o spirito he o que somos, e os bens que a elle pertencem são aos que podemos chamar nossos propriamente. He tão grande porem a imprudencia dos homens, que buscão com mayor cuidado os bens que estão mais longe, fasendo menos caso dos que estão perto sendo estes os essenciais. Pelos bens do corpo se despresão os do spirito, e pelos da fortuna se despresão os do corpo. (...) Estima o Mundo as riquesas como se nellas consistisse o soberano dos bens.
(...) O desejo immoderado das riquesas, como diz S. Paulo, esse he verdadeyramente a causa de todos os dannos. (...) Os verdadeiros bens são aquelles que fasem bons aos que os logrão, e isto he o que as riquesas jamais fasem. (...) Assento em que as riquesas neste mundo fasem muito mais mal do que bem. (...) Não há composto mais bello que o da sabedoria com as riquesas. Assim o disia o rico e sabio Salomão: a sabedoria he boa com huma herança; porque se póde estar a coberto á sombra da sabedoria, e á sombra da riquesa. Eccles. 7. Vs.11.
As riquesas he certo que cobrem aos que as teem, porem, da mesma forma que as cascas cobrem os caracoes carregando-os. (...) Quando parecem mais seguras então fogem voando como a Aguia, diz Salomão, não havendo conselhos sabios, nem atençoens possiveis para embaraçar os seus voos em mil acidentes inopinados. (...)
O homem sabio he o único que não comprará as riquesas pelo preço que ellas se vendem. (...) A medida justa das riquesas he aquella que basta para o uso. Todas as que são superiores ao uso o não tem. Este he o preço, e esta he seriosamente a estimação que dou ás riquesas. He bem differente o que dou sempre á honra. (...) Quem não sabe viver com as que tem sendo bastante, he ignorante: Quem deseja, e trabalha por augmentar ás necessarias he desgraçado."

(Carta LXXI, Tomo II, pp. 414-15/417-8-9/420-21)

Vienna de Austria, 25 de Septembro de 1737
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"Pelos bens do corpo se desprezam os do espírito," e eles constituem a verdadeira perda do Homem que as carrega como caracóis às costas. Sábio é o que não compra as riquezas pelo preço da perda do seu Eu. A justa medida é a medida certa. É ignorante quem não sabe viver tendo o bastante, é desgraçado quem as quer superiores ao uso. A honra é para o autor a verdadeira riqueza, essa não tem preço.