sexta-feira, 31 de maio de 2013

«O Tempo, protagonista da Poesia Barroca»

BUENOS DIAS

                            93

O' domador del Python, ó famoso
          Auriga, más felice, que Phaetonte
          No tan a prissa al cielo se remonte
El ímpetu del carro luminoso.
Duerme el mayor varon: el perezoso
          Sosiego lhega al metrico horizonte
          Calle el relincho pues Pyroes, y Ethonte
          No profane las aras del reposo.
Mas si la obligación de dar al dia,
          La fatigada luz, del triste Herebo
          Romper el negro baratro profundo.
Ceda Apolo en la aurifera porfia,
          Dese la rienda de Ericeira al Febo,
          Para girar los ambitos del Mundo.

SEGUNDA PARTE

SONETO DE CAMOENS

Doces lembranças da passada gloria,
          Que me tirou Fortuna roubadora,
          Deixay-me descançar em paz hûa hora;
Que comigo ganhais pouca victoria
Impresso tenho n'lma larga hystoria
          Desse passado bem, que nunca fora,
          Ou fora, & não passara, mas jà agora
          Em mim não pode haver mais que a memoria,
Vivo em lembranças, morro de esquecido
          De quem sempre devera ser lembrado,
          Se lhe lembrara estado tão contente.
O' quem tornar poderá a ser nascido!
          Soubera-me lograr do bem passado,
          Se conhecer soubera o mal presente.

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Termino esta antologia de poemas com a ilustração do tempo nas Rimas de Francisco de Pina  de Mello. Da segunda parte e como remate do trabalho, um soneto a Camões, "príncipe dos poetas". Sem ele, possivelmente, não teriam existido muitos dos nossos Poetas. O seu nome brilhava no emblema da Academia dos Singulares, quase no cume da pirâmide que começava com Homero, Aristóteles, Vergílio, Ovídeo, Horácio, Camões, Garcilaso, Góngora e Lope. "«Os nove heróis da poesia, os nove príncipes do Parnaso» juntos no Templo da Fama." Esta Academia e a dos Generosos, deram o contributo que a todos permitiu a criatividade e singularidade da linguagem da poesia barroca.

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(continua) pp.47

quinta-feira, 30 de maio de 2013

«O Tempo, protagonista da Poesia Barroca»

A HUMA CAVEIRA CERCADA DE FLORES

                           75

Com as flores a Morte! Há tal cegueira!
          As flores com a Morte! Há tal loucura!
          Quem fez desenganada a fermosura?
Quem fez desvanecida huma Caveira?
          Que seja a tumba a casa verdadeira
          Como a mesma vaidade conjectura?
          Como da Parca a mísera figura
          Se veste de huma gala lisonjeira?
Porem todo o espectáculo tremendo,
          Porem todo o Zodíaco florido
          Vay ou jà sazonando, ou corrompendo
Que muyto esteja o génio pervertido
          Se o que hão de ser as flores estão vendo?
          Se a Caveira está vendo o que tem sido?


A HUM BERÇO COM O FEITIO DE HUMA  TUMBA

                           78

Já he tumulo o berço, já tristeza
          O que foy alegria, escuro norte
          Segue a luz; & na câmara da Morte
Buscão os pulsos a vital proeza.
Já na casa da Parca a fortaleza
          Dos alentos se expoem; já passaporte
          Da Morte traz a vida; & desta sorte
          Se vão mudando as leys da natureza.
Não se admire ninguém, traça subida
          Foy do supremo Angélico conceito,
          Que altamente nos animos retumba.
Porque se tão depressa passa a vida,
          Quem pode duvidar, que hum proprio leito
          Pode vir a ser berço, & mais ser tumba?
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(continua) pp.46

quarta-feira, 29 de maio de 2013

«O Tempo, protagonista da Poesia Barroca»

DO MEIO DIA

                           48

          Sobe ao ponto brilhante, o' Phebo ardente
          E o divino licor da pura fonte
          Banhe a circunferência do horizonte,
De ardor enchendo o Ceo, de luz agente.
No throno do Zenith teu rosto aquente
          Como o valle abatido, o excelso monte,
          E com igual distancia se remonte
          Dos districtos da Aurora, & do Occidente.
Parte a diáfana luz do claro dia,
          E na fragoa de nítidos fulgores
          Arda toda a redonda monarquia.
E eu cuberto de míseros horrores,
          Cheo de huma mortal melancolia
Fuja as luzes, profane os resplendores.


DA TARDE

                           49

Vem, o' benigna tarde; & em torno gira
          O abrazado esplendor da clara esphera,
          E ao florido matiz da Primavera
Docemente o Favonio lhe respira.
          As lisongeiras, auras a celera;
          E no fresco dos Zephyros tempera
          Os acendidos campos de Saphira.
Guia o brilhante Apollo ao lento Occazo
          E refresca, abatendo o ardor esquivo
          As métricas alturas do Parnazo:
Depois vem; & verás meu peito activo,
          Tão ígneo, que na chama em que me abrazo
Ardo morrendo, & abrazado vivo.

DA NOITE

                           50

Deita, o' noite funesta o negro manto
          Pela aerea, e terrena arquitectura,
          E influa de teu rosto a pompa escuta
Nos medrosos mortaes confuso espanto.
Do sepultado Phebo ao fogo santo
          Receba o pardo círio a chama impura,
          E expulse a imagem da mortal figura
          O mal sofrido horror do eterno pranto.
Infunda, pois, teu rosto entristecido
          Silencio infausto em toda a redondeza,
          Desperta a treva, o lume adormecido.
Alegre eu só; que he tal a natureza
          De hu tão triste, infeliz, como affligido;
          Que descança entre as sombras da tristeza.

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(continua) pp.45  

terça-feira, 28 de maio de 2013

«O Tempo, protagonista da Poesia Barroca»

INVECTIVA

DESORDENADA TAREA DEL TIEMPO.

                         46

Traidoras horas, que com fuerça ímpia,
          Arrebatando al tiempo el passo lento,
          Tardas siempre passais em mi tormento,
Siempre ligeras en la gloria mia.
Que de balde os detiene el alegria!
          Que en vano os apressura el sentimiento!
          Pues huyendo a la prissa del contento,
          La perèza com mi dolor porfia.
Yô nò se que solicita eficacia
          Os incita; yô no se que desventura
          Os detiene en rebelde contumacia.
Imagino que el Cielo hazer procura
          La eternidad del Evo en mi desgracia,
          El estrago del tiempo en mi ventura.


DA MANHAÃ

                          47

Acende o' branca Nynfa, a luz sagrada,
          E ao Ceo correndo a fúnebre cortina,
          Traze a tocha da chama matutina,
Dos tímidos mortaes, tão desejada.
De derretido aljôfar adornada
          O duvidoso rayo determina;
          Os assopros subtiz da madrugada.
Espalha com a roxa claridade
          A alegria cabal do humano alento,
          Pondo a Esphera em risonha suavidade.
E continua o curso a meu tormento:
          Todo o Mundo te espera com vontade,
          E eu te recebo só com sentimento.

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(continua)pp.44

segunda-feira, 27 de maio de 2013

«O Tempo, protagonista da Poesia Barroca»

EXQUISITA ESTRATAGEMA
do vencimento


                    20

Afecto he já, o que era urbanidade;
          Já o ídolo n'alma tenho aceito;
          Viose nunca que as aras do respeito;
Lograssem sacrifício da vontade?
Pois esta he de amor a falcidade,
          Livre entrey, mas atado a seu preceito,
          Com tanta injuria estou, que me deleito
          De que tenha perdida a liberdade.
Não hà mais injustíssima violência
          Que me prenda à trayção, que a fantasia
          Me arraste sem nenhuma resistência,
Ea o tempo que me vexa, & me injuria,
          Que queira que eu lhe faça a continência
          De lhe louvar também a aleivosia.


PODEROSOS EFEITOS DO TEMPO
& da desventura

                    35

Depois de tanto tempo mal gastado;
          E em contínuos trabalhos consumido;
          Segunda vez me vejo reduzido,
A onde o objecto està de meu cuidado:
Que differente tudo! Que mudado
          Meus olhos estão vendo! Ou meu sentido
          Mo finge, ou he verdade que hão perdido
          Todas as cousas seu primeyro estado.
Esta não he a fonte, nem he esta
          A campanha, os curraes, os arvoredos,
          A serra, o rio, o mato, nem a gente:
Mudou-se o valle, o monte, & a floresta,
          Mudarão-se também estes penedos;
          Sò meu mal estâ firme, & permanente.

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(continua) pp.43

sábado, 25 de maio de 2013

«O Tempo, protagonista da Poesia Barroca»

AS  RIMAS
De
Francisco
De Pina, de Mello
MOÇO FIDALGO DA CASA DE SUA
MAGESTADE.

Primeira, & segunda Parte

Offerecidas

Ao Excelentissimo Senhor
D. GABRIEL
DE ALENCASTRO, PONC, E DE LEON,
Duque
De Aveiro, e de Banhos

Coimbra:

Na officina de Joseph Antunes da Sylva
Impressor da Universidade, & familiar do Santo Oficio
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Com todas as licenças necessárias
Anno de MDCCXXVII

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                 3

PRIMEYRA PARTE

                 15

Exquisita Idea do Fado

Quando me ponho a ver minha tristeza,
          Cuido mil annos tem meu sentimento,
          E se olha para vòs o pensamento,
Sempre encontra mayor vossa belleza
E inda vay minha dor, & a natureza.
          Da vossa bizarria em crescimento:
          Com que se hà cousa igual a meu tormento,
          Sò pode ser a vossa gentileza.
Em vez da temporal voracidade
          Gastar a perfeição, & a desventura,
          Augmenta a pena, estende a divindade.
Ora veja o que o Fado conjectura?
          Quer fazer huma nova eternidade
De meu mal, & de vossa fermosura.
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(continua) pp.42

«O Tempo, protagonista da Poesia Barroca»

V Tomo

MANDANDOSE UN RELOX
De movimiento en una ausência

SONETO

Que importa, ò Laura, pues mi amor ignoras
          Que esse relox, q a mi cuidado enbias,
          La mudanza me apunte de los dias,
          Si la igualdad me cuenta de las horas.
Muestre su movimiento a las Auroras
          Quan varias son; que las firmezas mias
          Nunca podràn frustrarse a las porfias,
          Que ha tanto son a tu Deidad deudoras.
Si pues firme en su proprio movimiento
          Mi de un relox con tan igual decoro
          Un hora, un punto, un atomo, un momento;
Que importa, ò Laura, que este mal que lloro,
          Te diga en las mudanzas, que me ausento
          Si muestra en las firmezas, que te adoro?

Anonymo


Na occasiaõ em que o Real Convento do Carmo de Lisboa
Celebrou a noticia do Papa Benedicto XIII.
ter mandado que em toda a Igreja se rezasse
da Senhora do Carmo, fez o mesmo
Autor o seguinte

SONETO

Virgem fermosa, honra do Carmelo,
          A quem o Sacro Empirio reverente
          Louvores mil, alterna docemente
          Do Candor que lograes, sem paralelo,
Fazey do affecto meu, eterno prelo
          Porque estampado fique, & permanente
          No vosso doce amor, com zelo ardente
         Em cada coraçaõ hum Mongibelo.
Para gloria de toda a Christandade
          Hoje o vosso louvor, faz mais jocundo
          De Benedicto Summo a Santidade.
Pois gravou seu espírito profundo
          No Padraõ immortal da Eternidade
          Solemne o vosso culto em todo o mundo.
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(continua) pp.41